
O Rio de Janeiro é uma cidade esculpida em pedra. Do Pão de Açúcar ao Corcovado, das calçadas do Centro Histórico aos casarões coloniais, a rocha é o elemento que dá forma à paisagem e à memória carioca. Mas poucos sabem que, sob essa geologia aparentemente comum, existe uma história profunda de resistência, fé e cultura trazida pelos africanos escravizados.
Este artigo revela os tipos de pedras utilizadas na marmoraria e na construção civil do Rio de Janeiro que carregam um significado especial para a cultura africana — desde os materiais que serviram de suporte físico para a vida dos escravizados até aqueles que foram consagrados como objetos sagrados nas religiões de matriz africana.
1. O Gnaisse Facoidal: A Pedra Mais Carioca e o Berço do Samba
Se há uma pedra que sintetiza a relação entre a geologia do Rio e a história africana, essa pedra é o Gnaisse Facoidal (conhecido internacionalmente como augen gneiss).
O que é o Gnaisse Facoidal?
O gnaisse facoidal é uma rocha metamórfica de alta resistência ao intemperismo, caracterizada por grandes cristais em forma de olho (daí o termo “augen”, que significa “olho” em alemão). É a rocha que forma os principais monumentos naturais da cidade, incluindo o Pão de Açúcar e o Corcovado .
No século XIX, durante o período imperial, o gnaisse facoidal foi amplamente utilizado na construção civil. Segundo o pintor francês Jean Baptiste Debret, que documentou a vida no Brasil em sua obra “Voyage Pittoresque et Historique au Brésil”, esta pedra era extraída por mão de obra escravizada em pedreiras como a do Morro da Glória . Debret observou que o gnaisse facoidal era mais macio, menos caro e mais fácil de esculpir do que outras rochas — por isso, era destinado principalmente às partes ornamentais dos edifícios .
A Pedra do Sal: O Monumento Vivo da Resistência Negra
O local mais emblemático onde o gnaisse facoidal se encontra com a história africana é a Pedra do Sal, na região portuária do Rio.
Trata-se de uma escadaria esculpida diretamente na rocha de gnaisse facoidal, localizada no coração da chamada Pequena África — a região entre os bairros da Gamboa, Saúde, Praça Mauá e Cidade Nova que foi o principal ponto de chegada e resistência da população negra no Rio de Janeiro .
A Pedra do Sal recebeu esse nome porque, no século XVII, era o local onde o sal trazido de Portugal (cujo comércio era obrigatório para os brasileiros) era descarregado e armazenado . Mais tarde, a região se tornou um ponto de encontro para africanos e seus descendentes.
Foi nessa escadaria de pedra que eles se reuniam para contar suas histórias, realizar cultos religiosos e cantar — foi ali, segundo historiadores, que o samba começou a nascer .
“Pedra do Sal, a stairway sculpted in the augen gneiss Downtown, was the place that African people met in the past to tell their histories, to do religious cults and to sing. In these meetings in Pedra do Sal samba was born.”
Hoje, a Pedra do Sal é reconhecida como um monumento das tradições afro-brasileiras e ainda é palco de rodas de samba que atraem cariocas e turistas . A escadaria de gnaisse facoidal permanece como um testemunho vivo da resistência cultural negra no Rio de Janeiro.
2. Pedras Sagradas: Os Otás e os Cristais de Proteção
Além das pedras usadas na construção civil como material bruto, a cultura africana no Rio também se expressa por meio de pedras com significado espiritual — os chamados otás nas tradições do Candomblé.
O que são Otás?
Otás são pedras que representam os orixás nos terreiros de Candomblé. Cada orixá tem sua pedra correspondente, que é consagrada ritualisticamente e utilizada nos assentamentos (os “igbás” ou “assentamentos”) que materializam a presença da divindade no terreiro.
Diferentemente das pedras ornamentais usadas na marmoraria convencional, os otás são selecionados por sua origem, formato, cor e propriedades energéticas segundo os preceitos das nações africanas (como Ketu, Jeje, Angola).
Os Achados do Cais do Valongo
Escavações arqueológicas realizadas na região do Cais do Valongo — o maior porto de desembarque de escravizados das Américas no século XIX — revelaram uma quantidade impressionante de objetos sagrados, incluindo otás, cristais e amuletos .
Entre os achados, destacam-se:
| Tipo de Objeto | Significado | Local de Descoberta |
|---|---|---|
| Otás (pedras de orixá) | Representação material dos orixás nos assentamentos | Cais do Valongo |
| Cristais | Usados para proteção do corpo e conexão espiritual | Cais do Valongo |
| Búzios | Instrumento de adivinhação e comunicação com os orixás | Cais do Valongo |
| Figas e amuletos | Proteção contra os abusos da escravidão | Cais do Valongo |
A mãe de santo Celina de Xangô, que trabalhou como voluntária no reconhecimento das peças encontradas no sítio arqueológico, descreveu a emoção de encontrar esses objetos: “Encontrar os objetos mágicos religiosos nos causou forte emoção. Eles mostram que, no meio da mais absoluta dor, escravos mantinham a esperança” .
Em 2022, o Museu da História e Cultura Afro-Brasileira do Rio de Janeiro inaugurou uma exposição inédita com 180 peças arqueológicas encontradas no Cais do Valongo, incluindo pedras e cristais usados para proteção do corpo . A mostra revelou ao público uma parte da história que ficou soterrada por décadas — literalmente.
3. Pedras Ornamentais nas Igrejas: O Sincretismo na Marmoraria
Um aspecto fascinante da presença africana na construção carioca é o sincretismo religioso expresso na marmoraria das igrejas. Um estudo recente sobre o patrimônio geológico das igrejas do Rio de Janeiro identificou uma diversidade impressionante de rochas utilizadas nas construções religiosas da cidade .
Mármores e Pedras nas Igrejas do Rio

O levantamento identificou os seguintes tipos de pedras em dez igrejas históricas da cidade:
| Tipo de Rocha | Origem | Presença em Igrejas do Rio |
|---|---|---|
| Lioz (calcário) | Portugal | Fachadas e altares |
| Mármore Carrara | Itália | Esculturas e revestimentos |
| Mármore Jacarandá | Brasil | Decoração interna |
| Mármore Bardiglio | Itália | Pisos e colunas |
| Negro de Mem Martins | Portugal | Contrastes ornamentais |
| Rosso Verona | Itália | Detalhes decorativos |
| Leptinite | Diversas | Estruturas |
O que poucos percebem é que, em muitas dessas igrejas, africanos escravizados e seus descendentes trabalharam como canteiros, escultores e marmoristas — muitas vezes sob a supervisão de mestres portugueses. Esses profissionais deixaram suas marcas na pedra, e algumas dessas marcas podem ser interpretadas como símbolos de origem africana incorporados à estética barroca e rococó das igrejas cariocas.
A Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, na Rua Uruguaiana, é um exemplo emblemático: construída pela Irmandade dos Homens Pretos, teve participação ativa de negros escravizados e libertos em sua edificação e ornamentação.
4. O Cais do Valongo: A Pedra que Guarda a Memória do Maior Porto Escravocrata das Américas
Nenhuma discussão sobre pedras e cultura africana no Rio estaria completa sem mencionar o Cais do Valongo — o sítio arqueológico mais importante da diáspora africana nas Américas.
O Que é o Cais do Valongo?
Construído em 1811, o Cais do Valongo foi o principal ponto de desembarque de africanos escravizados no Brasil. Estima-se que cerca de 900 mil pessoas tenham chegado ali, em condições desumanas, após a travessia forçada do Atlântico .
O cais foi posteriormente aterrado e coberto por ordens do Império, numa tentativa de apagar os horrores da escravidão da paisagem urbana. As obras de revitalização da Zona Portuária no século XXI, no entanto, revelaram o antigo cais — camada sobre camada de pedras que guardavam séculos de história .
As Pedras que Falam
As escavações no Cais do Valongo revelaram não apenas a estrutura do cais em si, mas também:
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Pisos de pedra que receberam os pés dos africanos recém-desembarcados
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Objetos litúrgicos em pedra utilizados em cultos
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Pingentes e amuletos de pedra e cristal
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Fragmentos de quartzo e outras rochas com evidências de uso ritualístico
O local foi declarado Patrimônio Mundial pela UNESCO em 2017, e hoje o Cais do Valongo é um memorial a céu aberto que convida à reflexão sobre a herança africana na formação da cidade.
5. Pedras na Diáspora: A Presença Africana na Marmoraria Carioca Hoje
A influência africana na marmoraria do Rio de Janeiro não é apenas histórica — ela continua viva.
A Herança dos Canteiros
Muitas das marmorarias e cantarias do Rio de Janeiro, especialmente nas regiões do Centro e da Zona Portuária, foram tradicionalmente geridas por descendentes de africanos que herdaram o ofício de seus antepassados. O conhecimento técnico sobre tipos de pedra, técnicas de corte e escultura foi passado de geração em geração, numa tradição que conecta o presente ao passado escravocrata.
A Valorização dos Otás no Design Contemporâneo
Nos últimos anos, designers e artistas afro-brasileiros têm resgatado o uso de otás e pedras sagradas em joalheria, escultura e decoração — transformando esses elementos em expressão artística e afirmação identitária . Obras de artistas como Emanoel Araújo exploram a simbologia das pedras na cultura afro-brasileira, criando pontes entre a tradição religiosa e a arte contemporânea.
Pedras e Memória
Hoje, cada vez mais projetos de arquitetura e paisagismo no Rio utilizam pedras de origem nacional em vez de importar mármores europeus — uma tendência que, indiretamente, valoriza o conhecimento dos antigos canteiros e marmoristas negros que trabalharam com essas rochas por séculos.
Tabela Resumo: Pedras de Origem Africana ou com Significado Afro na Construção do Rio
| Tipo de Pedra | Uso na Construção | Significado Cultural Afro |
|---|---|---|
| Gnaisse Facoidal | Alvenaria de igrejas, museus, casarões; escadarias (Pedra do Sal) | Local de encontro de africanos; berço do samba |
| Otás (pedras de orixá) | Não se aplica (objeto ritualístico) | Representação material dos orixás nos terreiros |
| Cristais e quartzos | Não se aplica (objeto ritualístico) | Proteção espiritual; conexão com o divino |
| Pedras do Cais do Valongo | Pavimentação e estrutura portuária | Testemunho da chegada de 900 mil africanos escravizados |
| Mármores brasileiros | Revestimento de igrejas e palacetes | Trabalho de canteiros e marmoristas negros |
Conclusão
As pedras da marmoraria do Rio de Janeiro são muito mais do que materiais de revestimento ou suporte estrutural. Elas são suportes de memória — testemunhas silenciosas da história africana na cidade.
Do Gnaisse Facoidal da Pedra do Sal, onde o samba nasceu entre cantos e orações, aos otás e cristais desenterrados do Cais do Valongo, que revelam a espiritualidade resistente dos escravizados, passando pelos mármores das igrejas esculpidos por mãos negras — em cada pedra há uma história de dor, fé e resistência.
Conhecer esses materiais é também conhecer a história que o Rio de Janeiro, por muito tempo, tentou soterrar. Hoje, essas pedras vêm à tona — literalmente — e nos convidam a reconhecer a centralidade da cultura africana na formação da cidade maravilhosa.









