
Joaquim Chissano diz ser hoje um homem muito mais ocupado
Recentemente, de passagem por Londres, Joaquim Chissano predispôs-se a conversar com Aires Walter dos Santos sobre o que faz, 2 anos depois de ter deixado a Presidência de Moçambique. O senhor deixou a Presidência de Moçambique há 2 anos depois de 18 anos no poder; o que faz uma pessoa depois de todo este tempo a chefiar um país? Sinto-me com a cabeça mais aliviada no que diz respeito ao peso da responsabilidade embora me sinta agora com menos tempo do que naquela altura. Tenho menos capacidade de planificar as minhas acções por causa das várias solicitações que tenho recebido, tanto no campo internacional como no nacional. Também do lado familiar e privado, todos acham que tenho mais tempo livre, mas não! Estou mais ocupado. O que me falta agora mais é o tempo. Mas sinto-me mais aliviado e sinto menos pressões. Portanto, quando toda a gente pensa que o cidadão Joaquim Chissano está agora a descansar, afinal está, se calhar, a trabalhar muito mais do que quando era Presidente da República? Isso é verdade. Estou a trabalhar. Estou a responder a várias solicitações da comunidade internacional, começando pelas Nações Unidas e pela União Africana. Já tive a missão [de enviado especial de Kofi Annan] na Guiné-Bissau. Trabalhei com a ONU quando das reformas em preparação da cimeira que teve lugar em Nova Iorque. Estive a trabalhar com a UNCTAD [Comissão da ONU para o Comércio e Desenvolvimento] na revisão do seu próprio funcionamento. Estou a trabalhar agora com o Banco Africano de Desenvolvimento. [NR: Em Dezembro de 2006 Joaquim Chissano foi nomeado pelo então Secretário-Geral das Nações Unidas para Enviado Especial da ONU para o Uganda]. Já me convidaram para vários conselhos de administração de várias organizações como por exemplo o Hunger Project, o Clube de Madrid. Tive uma missão para a Bolívia, no quadro do Clube de Madrid. A Instituição Nelson Mandela, que trata de ciência e tecnologia, sediada em Abuja, também me convidou. Tenho a Fundação Joaquim Chissano; tenho que me ocupar dela. Estou no Fórum dos Antigos Chefes de Estado Africanos. E depois são as conferências e palestras, aqui e acolá, e para as quais sou convidado. Portanto, há muita coisa para fazer. Porque foi que decidiu, voluntariamente, abandonar a Presidência da República? Isso é algo que muitos dos seus antigos colegas nem sequer pensam em fazer! Foi um plano concebido há muito tempo, mesmo antes de eu ser Presidente da República. Achei que a um dado momento devia ocupar-me da minha vida privada, para ver a vida de uma outra maneira. Tinha decidido que devia abandonar essa vida de estadista - não a vida política - enquanto tivesse energias para me poder ocupar de outras actividades. Foi um pouco tentar pôr na prática aqui que tinha estado a dizer às outras pessoas. O Senhor não sente saudades de ser Presidente da República; não tem saudades das benesses, dos guarda-costas, dos carros, das sirenes. A ausência disso tudo não lhe faz confusão? Olhe, isso tudo é que me incomodava mais [risos]! Essa falta de liberdade! Continuo a ter alguns guarda-costas mas já não é a mesma coisa! Estou com menos restrições, e isso é muito bom. As pessoas vêem-me com mais humanismo. Posso ter encontros com as pessoas e elas não se assustam muito. Mas, com certeza que sente algumas saudades! No fundo, no fundo, não tem saudades dos tempos em que não tinha sequer que abrir portas? Diga-me com franqueza! Mesmo agora continuam a abrir-me as portas! Por exemplo, estou aqui numa sala VIP [no aeroporto de Heathrow, em Londres]. Se bem que já passei por muitos aeroportos onde fui revistado e tudo o mais, estou aqui numa sala VIP e abriram-me as portas e vim num carro especial, etc. Mas não é disso que se tem saudade, porque é muito agradável a gente estar num restaurante, como faço sempre. Num hotel tenho uma sala para jantar mas, muitas vezes, vou para o restaurante porque agrada-me estar num ambiente onde há outra gente. É uma vida normal. Ir a um café e tomar um café como as outras pessoas. Ir a uma esplanada. Só isso é muito bom!