
Migração para cidades no pós-apartheid aumentou desemprego, achatou salários e intensificou fosso de renda, aponta estudo
A intensa migração para as áreas urbanas nos dez anos após o fim do apartheid gerou um efeito cascata que desencadeou num aumento de 14,5% na desigualdade de renda da África do Sul. A entrada de ex-agricultores, mulheres e estudantes na força de trabalho elevou a taxa de desemprego em 10 pontos percentuais, achatou os salários e intensificou a pobreza. Ainda contribuíram para agravar o problema o despreparo dos trabalhadores ingressantes e a política macroeconômica do governo ? que prioriza o crescimento das exportações e, dessa forma, beneficia os trabalhadores de renda e escolaridade elevadas.
A avaliação é do estudo "A evolução pós-apartheid da desigualdade dos salários na África do Sul, 1995-2004". O trabalho, lançado pelo Centro Internacional de Pobreza ? um braço do PNUD mantido em Brasília com o apoio do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) ?, foi elaborado por Terry McKinley, diretor do Centro, Rafael Osório, pesquisador da instituição, e Phillippe Leite, pesquisador do Banco Mundial.
O texto aponta que a desigualdade na África do Sul subiu 14,5% nos dez anos pós-apartheid ? regime de segregação racial estabelecido em 1948. Em 1995, primeiro ano em que o indicador foi medido após o fim do regime, o Índice de Gini ? que varia de 0 a 1, sendo 0 quando todos possuem a mesma renda e 1 quando uma única pessoa possui toda a riqueza ? era de 0,566. O índice teve uma alta de 15,3% e atingiu o pico de 0,623 em 2000. Desde então, o indicador passou a cair e recuou 0,7% até 2004, quando ficou em 0,598.
Os autores comparam a distribuição dos ricos e pobres sul-africanos à estratificação da população mundial, para salientar a dimensão da desigualdade da África do Sul. ?Se a população do país fosse alocada na escala mundial de renda per capita, os 5% mais ricos da África do Sul estariam entre os 10% mais ricos do mundo, enquanto os 5% mais pobres estariam entre os 10% mais pobres?, aponta o estudo. ?Apenas 7,4% da população mundial é mais pobre que os 5% mais pobres da África do Sul?, compara.
O aumento da desigualdade foi influenciado pela emigração rural, que levou para as áreas urbanas, em busca de emprego, trabalhadores mal-instruídos e inexperientes que antes trabalhavam no campo. Esse fator e a entrada massiva das mulheres na força de trabalho ajudaram a impulsionar o desemprego. ?Cerca de 75% do 1,5 milhão de vagas criadas entre 1995 e 2002 foi ocupado por mulheres?, ressalta o estudo. O resultado dessa migração foi a elevação expressiva do desemprego, que subiu de 20% em 1995 para 30% em 2004, e o conseqüente achatamento dos salários. ?A forte conclusão dessa análise é que o aumento do desemprego foi o principal fator imediato para a intensificação da desigualdade?, frisa o texto.
Mas o estudo ressalva que, embora a desigualdade tenha crescido, ?a África do Sul conseguiu progressos expressivos desde 1994 em outras dimensões. Muitos indicadores sociais têm apresentado desempenho melhor que os rendimentos, particularmente os referentes a serviços públicos. Isso tem sido feito com a realocação de recursos do orçamento para promover educação, saúde, segurança social e habitação nas áreas pobres?.