06.01.2007    IPS

África: Migrações, desertificação e conflito
Fulgence Zamblé

http://www.mwglobal.org/ipsbrasil.net/nota.php?idnews=2468

Tabou, Costa do Marfim - Já passaram três anos desde que Brahima Ouédraogo, um agricultor de Burkina Faso, chegou com sua família a uma aldeia da região de Tabou, na Costa do Marfim, em busca de terra arável. No começo, os moradores de Klotou lhes deram boa acolhida. Mas esta amabilidade desapareceu pouco a pouco.

Hoje, alguns querem que Ouédraogo e sua família partam. ?Quando se entra em nossas florestas, se vê que são usadas pelos imigrantes sem nenhuma preocupação em preservar o meio ambiente?, disse Marc Kallé, que vive na aldeia de Klotou.

Kallé se queixa que os agricultores de Burkina Faso e outros países da África ocidental instalaram acampamentos nas florestas da Costa do Marfim e acenderam fogueiras. ?Nestas condições, em poucos anos, provavelmente, nada restará. Aqui não há mais terra para compartilhar. Chegado o momento oportuno, a cada um será pedido que volte para sua casa?. Este tipo de situação e ressentimento já surgiu em ocasiões anteriores, causando enfrentamentos mortais. O mais grave aconteceu em 1999, quando morreram cerca de 50 pessoas em Tabou, e membros da etnia lobi e dagaré, de Burkina Faso, foram forçados a fugir por parte de indígenas kroumens.

Confrontos semelhantes aconteceram em meados de 2005 na região de Duékoué, na Costa do Marfim, com cerca de 10 mortos e, aproximadamente, 10 mil refugiados. Nos últimos meses, a situação em Tabou voltou a ficar tensa, com o regresso de pessoas não-nativas da área. Os choques entre indígenas e imigrantes em Duékoué também aumentaram nos últimos meses. Já houve dezenas de assassinatos, vários feridos e milhares de refugiados, segundo Youssouf Omar, coordenador humanitário interino para a Organização das Nações Unidas na cidade de Abidjã, centro comercial da Costa do Marfim. ?A principal causa destes conflitos continua sendo o problema da terra para cultivar?, disse Omar à IPS.

Atualmente, forças da ONU ajudam a patrulhar uma zona de exclusão entre o norte da Costa do Marfim, dominado por rebeldes, e o sul controlado pelo governo. O país ficou assim dividido depois do falido golpe de Estado de setembro de 2002. Através do Programa Mundial de Alimentos da ONU (PMA), do Fundo das Nações Unidas para a Infãncia e de entidades similares, o fórum mundial também realiza trabalho humanitário em comunidades vulneráveis, tanto entre indígenas quanto entre imigrantes. Por sua vez, estes tentam aplacar a situação.

?Estamos pedindo aos nossos irmãos da Costa do Marfim que compreendam que já não temos mais terra para cultivar em casa. Lá a seca é permanente e o solo sempre está seco. Por isso viemos para o sul. Aqui temos terra fértil e boas chuvas?, explicou Issouf Sawadogo, um dos líderes da comunidade de Burkina Faso em Tabou. Após um duro dia de trabalho, Ouédraogo, com seu corpo suado, descansa em uma cabana construída no campo onde cultiva cacau. ?No ano passado, com chuvas regulares, a produção superou as expectativas?, disse à IPS. ?Consegui 3,4 toneladas de cacau por hectare, duas toneladas de arroz e o mesmo de milho, suficientes para pagar a escola dos meus filhos e alimentar minha família por todo o ano?. Estatísticas do governo indicam que há mais de 200 mil imigrantes da África ocidental residentes no sudoeste da Costa do Marfim. ?Em sua maioria, vivem do cultivo de cacau e outros alimentos?, disse à IPS Bruno Yao Klouassi Essé, funcionário da localidade de Grand-Béréby. Estima-se que cerca de cem mil famílias chegam a cada ano a esta região.

Segundo o Ministério de Meio Ambiente, a área florestal do país diminui de 10 milhões para três milhões de hectares entre 1988 e 2005. Até 1984, o desmatamento na Costa do Marfim era de, aproximadamente, 2,5% ao ano, mas depois do início dos cultivos de cacau e café aumentou para 11% anuais. Mas não se pode culpar apenas a imigração de outros países, segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma). Esta agência indica que a chegada de pessoas do norte da própria Costa do Marfim também é uma causa de grande parte da exploração das florestas.

Com isto concorda Amigos da Floresta (Amifor, siglas em francês). Esta organização não-governamental com sede em Yamoussoukro disse que as áreas setentrionais se tornaram improdutivas, e alertou que o sul experimentará uma desertificação semelhante se não forem intensificadas as políticas de reflorestamento.

Etienne Guéhi, especialista em administração e avaliação ambiental na Universidade de Abobo Adjamé, em Abidjã, disse que as pessoas que tentam sobreviver na região têm certas práticas que agravam a desertificação: cortam árvores para fazer plantações e cultivam o mesmo nas mesmas terras ano após ano, nunca dando ao solo o tempo necessário para se recuperar. Além da sobrevivência, se não se puser fim à elevada proporção de imigração e destruição de florestas, a desertificação continuará aumentando na Costa do Marfim, disse Innocent Kra Kouadio, presidente da Amigos da Floresta. (IPS/Envolverde) (FIN/2007)