01.01.2007    IPS

Fórum Social Mundial: Correndo pelo direito de morar
Joyce Mulama

http://www.mwglobal.org/ipsbrasil.net/nota.php?idnews=2434

Nairóbi - Milhares de moradores de assentamentos irregulares de todo o planeta participarão no Quênia, no próximo mês, da ?Maratona por Direitos Básicos: outro mundo é possível, mesmo nas favelas?, no contexto do Fórum Social Mundial.

 

A próxima edição do FSM acontecerá entre 20 e 25 de janeiro em Nairóbi. Os organizadores prevêem que cerca de 10 mil moradores de várias favelas do Quênia correrão junto a muitos mais de outros países para pressionar os governos por melhorias em suas condições de vida.

 

O Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos calcula que cerca de um bilhão de pessoas vivem em assentamentos irregulares em todo o mundo, a maioria na África, América Latina e Ásia. A maratona de 14 quilômetros começará em Korogocho, um assentamento da zona leste de Nairóbi, passará pelas ruas da capital queniana e terminará no parque Uhuru. Na linha de largada também estarão os corredores quenianos profissionais Tegla Lorupe e Paul Tergat. ?Queremos transmitir uma mensagem de esperança: que outro mundo, livre e justo, é possível para os moradores dos assentamentos?, disse à IPS a ativista Denielle Moschetti, que participa da organização da corrida.

 

?A maratona é para não deixar os governos esquecerem dos assuntos pendentes, para que não voltem as costas ao problema enquanto a situação continua se deteriorando. As pessoas estão cansadas de palavras. Reclamam ações?, acrescentou Moschetti. A ativista pertence à Igreja Católica de Korogocho, integrante da Exodus Kutoka, uma rede de 15 paróquias que trabalham em diferentes assentamentos de Nairóbi. Essa rede organiza a maratona junto com a não-governamental Coalizão por Moradias e Terras do Quênia.

 

Os 199 assentamentos irregulares de Nairóbi estão densamente habitados e sofrem graves carências de serviços básicos. Korogocho, que significa ?confusão? na língua dos kikuyu, a maior etnia do Quênia, é um bom exemplo. Cerca de 120 mil pessoas, das mais de dois milhões que habitam essa cidade, vivem espremidas em 1,5 quilômetro quadrado do assentamento. Como na maioria das favelas, as casas são de barro e chapas e separadas por estreitas passagens que também servem de latrina e para jogar o esgoto.

 

Os assentamentos são virtualmente intransitáveis na estação da chuva, quando o transbordamento do esgoto coloca em risco a saúde dos moradores, já em perigo por causa das montanhas de lixo e pela escassez de água. Organizações de direitos humanos acusam as autoridades de não demonstrarem a rapidez necessária para melhorar a situação. ?O governo parece não ter claro como abordar a situação. Planejam de cima para baixo sem manter contato com a realidade?, disse Boaz Waruku, diretora de programa da Shelter Fórum, coalizão de organizações dedicadas ao tema da moradia.

 

Os residentes nos assentamentos concordam com essa perspectiva. ?Vivemos aqui e sabemos do que precisamos. Sabemos onde o sapato aperta e não queremos que o governo nos imponha suas estratégias. Queremos ser parte dos planos do governo que nos envolvem?, disse Mwangi Mwaniki, morador em Korogocho. Porém, o governo continua afirmando que consultando os moradores de favelas e que foram registradas melhorias. Betty Tett, assessora do Ministério da Habitação, recordou nesse sentido a implementação do Programa de Melhoria de Favelas do Quênia, lançado em 2004 com apoio do Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos.

 

O programa tem por objetivo construir moradias com água potável nos assentamentos irregulares, e começou a se concretizar em Kibera, a maior favela do Quênia, onde vivem mais de 700 mil pessoas. ?É um programa nacional que melhorará as condições de vida, não somente em Kibera mas em todos os assentamentos irregulares do país?, disse Tett à IPS. Para melhorar as condições de vida não basta apenas casa e saneamento, apesar de sua vital importância. É chave criar oportunidades de trabalho para os moradores, especialmente os jovens, segundo Moschetti.

 

?A maioria dos jovens nas favelas está desempregada, o que cria condições para a delinqüência. Seu mal-estar cresce pela falta de oportunidades. É uma bomba de tempo?, acrescentou a ativista. Moschetti também mencionou a migração para as cidades, bem como a criação de serviços nas regiões distantes. Para remediar essa situação foi criado no início do ano o Fundo Empresarial Juvenil que, espera-se, comece a funcionar está semana por determinação presidencial.

 

O Fundo será usado para que jovens empresários iniciem seu negócio. Mas teme-se que o dinheiro se perca devido à corrupção. ?Como saberemos que o dinheiro eu distribuído de forma democrática e utilizado para o que foi previsto, dada a grande corrupção que existe no país??, perguntou Paul Angela, de 20 anos, que vive em Korogocho. Os organizadores esperam cerca de 150 mil delegados no FSM. Está é a primeira vez que um país africano será sede desse acontecimento da sociedade civil.

 

O FSM foi realizado pela primeira vez em 2001em Porto Alegre, onde aconteceu até 2004, quando teve por sede a cidade indiana de Mumbai. Em 2005, voltou à capital do Rio Grande do Sul e este ano aconteceu como ?fórum policêntrico?, em três cidades: Bamako (19 a 23 de janeiro), Caracas (24 a 29 de janeiro) e Carachi (de 24 a 29 de março). Criado como alternativa ao Fórum Econômico Mundial, a reunião anual na localidade suíça de Davos que atrai a elite empresarial e política do mundo, o FSM reúne uma série de grupos e indivíduos, principalmente da sociedade civil, que se opõem à globalização em seu modelo atual. (IPS/Envolverde)