
Mulheres são principal força de trabalho nas minas
Alta, magra e prestes a aposentar-se, Isata Kamara, 60 anos, não se encaixa no típico perfil dos mineiros da rica mina africana de Serra Leoa.
Ao mostrar a pequena, mas densa pilha de ouro sobre a mesa, Isata admite orgulhosamente ter ela mesma garimpado as pepitas.
Vestindo saia e cachecol tipicamente africanos, Isata apresenta a sua equipa de mineiros reunidos ao seu redor. Um grupo de jovens mulheres, muitas delas com crianças de colo.
Esta e outras equipas formam o pilar da pequena mina de ouro da Serra Leoa, onde 90% do contigente de trabalho é constituído de mulheres.
Enquanto muitos homens seguem o sonho de encontrar diamantes, são de facto as mulheres que peneiram os cascalhos com nada mais que utensílios domésticos e uma pá.
"É um bom trabalho", explica a tímida Kamara. "Peneiramos o ouro quase todos os dias e, no fim, somos sempre pagas - existe muito ouro na região. Nunca vamos dormir com fome, ao contrário dos mineiros que trabalham com diamantes. É muito raro para eles encontrar pedras", explica ela.
Nas regiões de diamantes de Serra Leoa, poucas pedras preciosas são encontradas nos leitos dos rios, dificultando as condições de trabalho para a maioria dos homens que trabalham nas minas de diamantes aluviais.
Corrida ao Ouro
A África Ocidental é uma das regiões produtoras de ouro que mais cresce no mundo.
Leon Boksenbojm, perito da região, afirma que entre 1997 e 2001, enquanto o resto do mundo experientava um declínio na produção de ouro, a região teve um crescimento de 56%.
Actualmente, graças à geologia favorável da sub-região, consegue-se suprir abundamente a demanda de ouro.
De acordo com estatísticas sobre metais preciosos pesquisadas pela empresa GFMS, o Ghana e o Mali são hoje o segundo e terceiro maiores produtores de ouro.
O Ghana produziu em 2005, 62.8 toneladas de ouro, enquanto o Mali foi responsável pela produção de 45.9 toneladas.
A África do Sul é ainda a maior produtora de ouro, gerando 296.3 toneladas no último ano.
A Tanzânia, antes considerada uma produtora de ouro insignificante - contando apenas com uma mina de pequena escala - é hoje uma produtora industrial com 48.9 toneladas anuais.
Novos caminhos
Já existem sinais positivos de que a Serra Leoa pode também vir a ser um grande produtor. Novos depósitos de ouro foram encontrados no norte, sul e leste do país.
No entanto, a falta de uma indústria de exportação regulamentada e monitorada apontam para uma reforma imediata.
"Olhando para o mapa observamos inúmeras áreas do país onde foi encontrado ouro. Então sabemos que ainda existe muito ouro para ser explorado", atesta Paul Temple, consultor do Projecto Internacional de Administração de Sistemas de Diamantes.
"Mas neste momento, saber o quanto não é suficiente já que ainda não foram feitas pesquisas para a indentificação dos locais", explica Temple.
Enquanto nada é feito, infelizmente, são os trabalhadores que mais sofrem com a falta de um mercado regulamentado.
Kamara e a sua equipa de mulheres são um exemplo. Por não saberem os preços do mercado internacional do ouro, vendem o que encontram ao chefe local ou a negociantes libaneses.
Impecilhos
Inúmeros factores contribuem para atrapalhar o desenvolvimento de um mercado de ouro oficial na Serra Leoa.
Um dos maiores problemas é a infra-estrutura da região, que foi imensamente afectada após mais de uma década de guerra civil. Sistemas de água, eletricidade e estradas são praticamente inexistentes.
Alguns críticos apontam ainda para os altos níveis de corrupção e para a falta de vontade política do país.
Como resultado, enquanto companhias internacionais estão cada vez mais a explorar o rico potencial das reservas minerais da Serra Leoa, a mineração industrial está ainda numa fase inicial.
Para um trabalhador anónimo da região, o governo mostra-se relutante em investir em ouro: "Parte dessa relutância pode ser atribuída à falta de uma política monetária homogénea na região e na África Ocidental", destaca o trabalhador.
Contrariamente, é o ouro que permite a muitas das companhias da Serra Leoa estabelecerem negócios em regiões vizinhas como a Libéria e a Guiné-Conacry.
Para Alimany Wurie, o director de minas na Serra Leoa, isso pode levar a uma exploração ilegal de ouro na região.
"O ouro tem sido contrabandeado para a Guiné-Conacry", afirma o secretário do governo. "Muitas pessoas não compreendem a importância da venda e compra de ouro por canais oficiais e preferem trocar o ouro por outras mercadorias".
Perdas
Na tentativa de combater o comércio ilegal de ouro, o governo observa atentamente as companhias que administram as minas de diamantes na região e que têm encontrado grandes quantidades de ouro após terem processado os diamantes.
Especialistas do sector suspeitam que essas empresas não irão cooperar com o governo com medo de que seus lucros sejam afectados.
Ainda de acordo com os especialistas, o governo deveria concentrar as suas atenções nas empresas de pequena escala, onde o contrabando é maior e um mercado regulamentado favoreceria mais pessoas.
Conceder licenças, criar escritórios autorizados para a compra e venda de ouro e estabelecer um preço oficial seriam as primeiras medidas a serem tomadas.
"Em Kenema, onde a maioria do comércio de diamantes é efectuada, escritórios oficiais estão por todo o lado", afirma Mohammed Turay, representante da Campanha para uma Mineração Justa.
"Todos sabemos da abundância de ouro da região, mas até o governo começar a regulamentar a indústria muito desse ouro está a perder-se".