Dados não oficiais indicam que mais de trinta mil pessoas morreram em consequência daquilo que o regime da época denominou de «intentona golpista» e que se consubstanciou numa revolta dentro do próprio MPLA.
Uma das pessoas que esteve envolvida nesta situação é o Miguel Franscisco, também conhecido por «Michel». Tinha na altura 21 anos de idade e era militar da então famosa nona brigada de infantaria motorizada, a tropa de elite da época. Esteve preso alguns anos num campo de concentração.
Hoje, aos 51 anos, é professor universitário. A sua vivência na cadeia inspirou-o a escrever um livro sobre os acontecimentos do 27 de Maio de 1977.
Com o título «Nuvem Negra- O drama do 27 de Maio», a obra foi editada pela Clássica Editora, em Portugal, e poderá ser lançada já neste domingo, na sede da Associação Chá de Caxinde.
Segundo o seu autor, o acto de lançamento deverá acontecer durante um almoço promovido pelos sobreviventes do 27 de Maio. Miguel Francisco «Michel» conta que o livro não é propriamente uma obra literária, mas um relato dos acontecimentos daquela época e que pode ser útil para os historiadores.
«Temos problemas de transporte. Inicialmente deviam vir três mil exemplares, mas virão muito poucos. Podemos dizer que será um lançamento simbólico. Só mais tarde é que virá o grosso dos exemplares que serão vendidos em Angola».
Jurista, Miguel Francisco «Michel» conta que na altura da sua detenção encontrava-se em casa doente, mas confessa que sempre comungou das ideias do Nito Alves, o líder dos revoltosos. Foi na sua residência onde as forças de segurança o foram buscar para o prender.
«Eu fui tanquista, pertencia aos «Dragões». Foi dos «Dragões» de onde partiram os blindados para a rua para apoiar a insurreição, que depois passou a chamar-se golpe de estado, mas não vamos discutir aqui esta questão. Nesse dia eu não estava no quartel, tinha saído do no dia 22 de Maio. Fui para casa porque tinha dormido de serviço de sábado para domingo. E como tenho problemas de estômago, depois fiquei doente. Isto talvez tenha sido a minha sorte, porque certamente hoje já não pertenceria ao mundo dos vivos. Quando se deu a insurreição, na sexta-feira, estava em casa com alguns amigos, como o Libório, o Nando Russo, o Relâmpago. O resto está tudo relatado no livro».
O autor do livro «Nuvem Negra» considera que, trinta anos após os acontecimentos do 27 de Maio, é altura de se fazer uma catarse, mas refere que dentro do MPLA há correntes que se opõe à ideia. Ele que actualmente é membro de um dos comités de especialidade do MPLA.
«Acho que devíamos pensar seriamente nisto, abrir o livro e reconhecermos que houve erros muito graves. Por exemplo, no campo de concentração onde estive preso foram lá parar indivíduos que nem sequer sabiam quem era o Nito Alves. Morreram lá, foram lá desterrados. Porque é que enviaram aquelas centenas de jovens e nas condições em que estiveram, nas situações terríveis que vivemos lá. Acho que devia-se fazer uma catarse. Quem quer conservar o poder terá de pautar a sua conduta na humildade. Para mim a humildade nesta questão do 27 de Maio passa necessariamente em reconhecer e abrir o livro da verdade».
À propósito do dia 27 de Maio, o Partido Renovador Democrático (PRD) vai promover no domingo, uma romagem ao cemitério do Alto das Cruzes, em memória às vítimas do triste acontecimento. Também o Partido de Apoio Democrático e Progresso de Angola (PADEPA) está a proceder uma campanha de recolha de assinaturas para apresentá-las ao Tribunal Penal Internacional, visando a «responsabilização dos autores do massacre».