A capa do livro de instigou este importante e histórico projecto

15.12.2004    BBCParaÁfrica

Vestígios de Angola na Flórida
Aires Walter dos Santos



Especialistas norte-americanos começaram, no dia 12 de Dezembro, escavações arqueológicas no local em que se acredita que cerca de 300 antigos escravos viveram numa comunidade chamada Angola.

Um grupo de 17 antropólogos e historiadores acha ter identificado o local, que foi nomeado em honra à terra africana de onde muitos dos residentes eram provenientes.

Tratavam-se de homens e de mulheres alforriados e fugitivos que se estabeleceram no delta do rio Braden, perto da que é agora a baixa da cidade de Bradenton.

A directora deste projecto é a jornalista Vickie Oldham. Também envolvido está o antropólogo Uzi Baram, Professor do Novo Colégio da Flórida, na cidade de Sarasota.

Em entrevista a Aires Walter dos Santos, ambos explicaram os detalhes das operações arqueológicas e antropológicas em que estarão envolvidos nos próximos tempos.

Vickie Oldham, como foi que começou este projecto?

Vickie Oldham (VO) - Eu estava a trabalhar no texto para um documentário sobre a história da região de Sarasota e reparei que outras pessoas haviam mencionado o facto de pessoas negras terem vindo para esta área depois da Guerra Civil nos Estados Unidos.

Mas eu sabia que essas pessoas tinham vindo para aqui antes da Guerra Civil por causa de um livro que li do historiador Canter Brown entitulado Florida's Peace River Frontier.

Fui então capaz de me referir à história de Angola. Mas, depois de o documentário ter sido finalizado, este episódio continuou na minha mente, como se quizesse ser divulgado.

Comecei a perguntar a académicos e a especialistas se haveria apoio financeiro se eu decidisse organizar um projecto para documentar a história da comunidade de Angola. E descobri que haveria esse apoio.

Professor Uzi Baram, tem a certeza que esses escravos eram originários de Angola?

Uzi Baram (UB) - Angola é o nome comum dado a comunidades de escravos fugitivos.

E a forma como sabemos dessa comunidade de Angola foi através de documentos de 1821 quando um grupo de pessoas que viviam na área do rio Manatee reivindicaram a propriedade dessas terras e referiram-se a elas como sendo "Angola."

Assume-se pois que essas pessoas tenham interagido com esses escravos foragidos que viviam naquela comunidade. "Angola" é um nome comum dado a comunidades criadas por escravos foragidos.

Assumimos, pois, que se tratam de pessoas vindas do país africano que hoje se chama Angola. O termo "Angola" também representa a luta pela liberdade.

Em que pé estão os vossos trabalhos de pesquisa?

UB - O projecto acaba de começar. Estamos a juntar todas as peças. A Vickie Oldham fez um trabalho fantástico juntando um grupo de historiadores que analisaram toda a documentação dispersa referente a Angola.

Há também uma antropóloga cultural que está a trabalhar nas Bahamas com descendentes dos escravos angolanos da Flórida.

Estamos agora a fazer as escavações para tentar encontrar vestígios físicos da comunidade de Angola.

Tem esperanças de encontrar alguma coisa?

UB - Enquanto arqueólogo, impressiono-me sempre com o potencial das investigações arqueológicas. Se as pessoas viveram nesta região do rio Manatee durante duas décadas elas provavelmente deixaram vestígios materiais.

É possível que necessitemos de alguma sorte, mas deveremos ser capazes de encontrar algumas evidências dessa comunidade. Estou confiante nisso.

Vickie Oldham, pode dizer-me mais sobre essa comunidade? Aparentemente, e de acordo com historiadores, foi destruida em 1821.

VO - Esta foi a parte que mais me cativou. O facto das pessoas na comunidade terem sacrificado tudo pela liberdade. Vieram para aqui e viveram nesta comunidade sozinhos, ajudando-se uns aos outros e determinados em sobreviver.

Sabemos que a comunidade começou a crescer e transformou-se num local de abrigo seguro. Houve um assalto em 1821 e a comunidade foi destruida.

O aspecto fantástico deste episódio que sobreviveu até hoje foi o facto de alguns dos angolanos terem escapado em jangadas para uma ilha nas Bahamas onde existe hoje uma população descendente desses escravos.

E sabemos disso através de pesquisas feitas pela Doutora Rosalynd Howard, que escreveu um livro entitulado Black Seminoles nas Bahamas.

Ela também faz parte deste projecto arqueológico e antropológico em que estamos envolvidos. Esta é a parte interessante desta história; sim, houve devastação.

Mas, ainda assim, houve pessoas que sobreviveram e que tiveram suficiente força de espírito para sobreviver.

Está a organizar uma série de palestras sobre a comunidade de Angola. Como é que estão a correr as coisas?

VO - Está tudo a correr muito bem. Conseguimos fundos para arrancar com esta campanha de educação pública. Os fundos vieram das autoridades da Flórida e temos 12 palestras agendadas para o Mês da História Negra em Fevereiro de 2005.

Vamos começar a 28 de Janeiro e prosseguir durante Fevereiro e Março, porque houve o interesse de Sociedades Históricas, organizações, igrejas e grupos de arqueologia.

Estamos agora envolvidos na distribuição de posters e no envio de materiais de publicidade para as pessoas que gostariam de saber mais sobre este projecto.

É importante que o público entenda o que se está a passar porque é bem possível que necessitemos de fazer escavações em propriedades privadas.

E quando se fala em escavar os quintais das pessoas, isso por vezes provoca alguma ira. Por isso queremos que toda a gente entenda da importância daquilo que estamos a fazer.

Professor Baram, em termos antropológicos, quão importante é o trabalho que estão a fazer?

UB - Acho que a procura de Angola poderá transformar-se num dos mais importantes projectos nos Estados Unidos. E digo isso sem querer hiperbolizar.

No início dos anos 70 em Nova York arqueólogos descobriram o que é agora conhecido como o Cemitério dos Africanos que revelou, para grande surpresa dos arqueólogos as ossadas de mais de 400 escravos africanos que viviam no que é agora a cidade de Nova York.

Nos anos oitenta, nos arredores de Saint Augustine, na Flórida, foram descobertos vestígios de Fort Mose, que era um símbolo de liberdade da Flórida Espanhola para escravos negros fugidos da Carolina do Sul e da Geórgia.

O projecto Angola poderá ser uma forma de ganhar acesso às vidas de pessoas que não foram incluidas nos registos históricos.

Pessoas que escaparam dos horrores da escravatura e que foram capazes de viver como negros livres aqui na que era naquela altura a Flórida Espanhola.

Mesmo depois da destruição da comunidade, elas foram capazes de escapar para a liberdade nas Bahamas Britânicas. É uma história importante para a população das Bahamas mas também para o povo dos Estados Unidos.

Os norte-americanos, em particular na Flórida, estão a par destes factos?

UB - O que a Vickie fez com a organização destas palestras foi levar a história às populações da região. Acho que, neste momento, quase ninguém sabe da Comunidade de Angola aqui nesta região - incluindo os académicos com quem trabalho.

Mas depois desta série de palestras acho que alertaremos a consciência das pessoas para a primeira comunidade negra na Flórida e ficará reconhecido que as margens do rio Manatee foram um símbolo de liberdade para pessoas escravizadas.