1- Como começa a sua experiência africana? Prefiro falar de minha experiência na África em vez de experiência africana. Nesta última deveria falar das experiências que tive com cultura e pessoas de origem africana no Brasil, nos Estados Unidos e em praticamente todo o mundo. Minha primeira viagem à África, além de uma escala de algumas horas no Aeroporto de Dakar em 1961, foi em 1970. O que eu havia lido sobre a história, a geografia e a cultura africanas serviram de base para desenvolver interesse e curiosidade, e naturalmente, criar uma imagem de como seriam os africanos na África e como seria a terra África. Em 1968, como professor da State University of New York at Buffalo, eu passei a ser o Diretor de Estudos Pós-graduados em Matemática da Universidade. Era um programa oferecendo o PhD em Matemática Pura e Aplicada, muito bem conceituado e grande, com cerca de 60 bolsistas. Nessa posição, participei ativamente do momento social da época, em particular das estratégias do movimento de affirmative action. Tive muita interação com os afro-americanos, sobretudo gerenciando a inclusão desses alunos no programa de doutorado da SUNYaB, resultado do sistema de quotas para admissão de afro-americanos nas universidades americanas, estabelecido em 1968. Em 1970 recebi um convite, que muito me surpreendeu, da sede da UNESCO, em Paris, para ser Professor na República do Mali, como responsável pela cátedra de Análise Matemática de um programa inovador, denominado Centre Pédagogique Supérieur, junto à École Normale Supérieur de Bamako. A ENS tinha como objetivo formar professores para o ensino secundário. Os programas eram semelhantes aos das instituições equivalentes na França e os professores eram franceses, os denominados coopérants. O desejo de ter um corpo docente de malianos, alimentado desde a independência, em 1960, seria realizado com a volta de bolsistas enviados às universidades francesas. Mas a realidade é que os jovens malianos, uma vez obtido o doutorado, ou ficavam no exterior ou, ao voltar, assumiam cargos políticos e administrativos. E não havia corpo docente maliano. Foi então elaborado um projeto, com apoio da UNESCO, para a “malianização” do corpo docente da ENS, mediante um doctorat sur place, como era informalmente identificado o projeto Mali 1 - Centre Pédagogique Supérieur de Bamako. O projeto, idealizado por um brilhante poeta da República do Congo, Felix Tchicaya U’Tamsi, então funcionário da UNESCO, consistia, essencialmente, em oferecer o doutorado mediante a contratação de professores de universidades do exterior, para um período suficiente para a formação de um número de doutores malianos. A qualidade seria garantida mediante a escolha de bancas de reconhecidos cientistas do exterior. Assim, iniciou-se um recrutamento internacional para esse programa, em prestigiosas universidades do exterior, de vários países, não privilegiando a França. Dos professores foram convidados dos Estados Unidos: o Professor Charles V. Bird, da Indiana University, para Lingüística, e eu, da SUNYaB, para Análise Matemática. Outros colegas vinham de vários países, por exemplo França, Marrocos, Inglaterra, Hungria, Iugoslávia. Minha reação, imediata, foi dizer que não seria possível aceitar e mudar-me, com toda a família, para Bamako. A educação dos filhos preocupava e eu mesmo, estando ativo em pesquisa, estaria cometendo um suicídio acadêmico ao ficar afastado das bibliotecas e dos congressos e seminários, vitais para o pesquisador. A reação dos outros convidados foi a mesma. Todos achavam impossível manter-se ativos na pesquisa longe das bibliotecas, dos laboratórios e do ambiente acadêmico em geral. Mas, naturalmente, uma visita curta não permitiria conduzir uma pesquisa para um doutorado. O projeto de doutorado no próprio país me atraía muito. Tive, então, a ousadia de fazer uma proposta: ir e voltar quatro vezes por ano, passando, em cada visita, duas a três semanas. E, para minha grande surpresa, a proposta foi muito bem recebida por Tchicaya. Iniciou-se, assim, uma modalidade nova de cooperação internacional: professores viajantes. Assinamos um contrato de consultoria permanente e chegamos a receber o passaporte azul da UNESCO. Cada visita representava um período intenso de atividades com os alunos, e entre as visitas, eles trabalhavam independentemente e em grupo, organizando-se e coordenando-se com a autonomia do grupo. Do ponto de vista pedagógico, essa é, para mim, a melhor modalidade de educação. Sobretudo agora, graças às enormes facilidades oferecidas pelos meios de comunicação rápida, particularmente a internet. Naquele tempo, o meio de comunicação mais rápido era a mala diplomática da UNESCO. E funcionou muito bem. Tive a grata satisfação de levar ao doutorado vários jovens malianos, todos defendendo suas teses perante bancas internacionais de conceituados especialistas. Tive, em especial, a alegria de ter sido orientador do primeiro maliano a obter o grau de doutor, um jovem brilhante, Bakary Taoré. Acredito que ele tenha sido o primeiro africano, nos países recém independentes, a se doutorar no próprio país. Bakary chegou a Ministro de Educação do país, e nessa função foi brutalmente assassinado durante a guerra civil de 1991. Minha experiência no Mali foi um dos períodos mais importantes da minha vida. Representou um grande passo no meu crescimento profissional, cultural e pessoal. 2- Sabemos que existem muitas Áfricas. Dos países africanos que o Sr. conheceu, existem características ou aspectos que são comuns a todas elas? Talvez, apenas, a cor das populações. E, mesmo assim, de diferentes matizes, como encontramos diferença entre um sueco e um siciliano. E cultural e natureza, totalmente diferentes. No Brasil, ou na América Latina, ou na Europa, estamos muito longe de ver diversidade quando comparamos com a África. Os problemas, a natureza dos problemas, as propostas, enfim, tudo é diferente. Talvez o que identifique os países subsaarianos sejam os reflexos do processo de expansão do islamismo e do cristianismo, e a interrupção de uma evolução cultural a partir dessas conversões religiosas. Cada momento de desencontro cultural que eu notei, e são numerosos, pode ser traçado à conversão religiosa e suas conseqüências nas visões de mundo, nas visões do homem, na espiritualidade e na ciência. Talvez a conseqüência mais desastrosa foi a substituição de uma violência natural da própria vida, presente nas culturas africanas como em todas as demais culturas, por uma violência institucionalizada, intrínseca ao processo de conversão religiosa e a dinâmica de cooptação que acompanha o processo. A docilidade natural do africano no encontro com o diferente foi vitimada pelo processo de conversão religiosa. 3- Das colonizações, qual aquela que lhe pareceu a mais impositiva, a que mais desfigurou a cultura local? Prefiro mencionar a menos impositiva, que foi a portuguesa. Explico por que a considero menos impositiva. A colonização portuguesa, e isso inclui o Brasil, foi de extração, muito menos que de produção. Extração de recursos naturais bens, nos quais se incluem seres humanos. A colonização portuguesa mais foi marcado pela criação de entrepostos e de estrutura para sua defesa. Não houve, por exemplo, expansão da língua e uma conversão religiosa reduzida. Na verdade, a colonização portuguesa deixou suas marcas nas cidades, em praticamente toda a África litorânea. Apesar de ter sido a mais longa das colonizações, não criou uma infraestrutura de produção. A colonização islâmica, embora de curta duração, deixou marcas profundas no pensamento religioso e, portanto, no comportamento social. De certo modo, as colonizações francesa e inglesa, e do mesmo modo, outras européias, particularmente belga e holandesa, causaram forte desfiguração das instituições sociais. 4- Como foi a sua experiência no Mali? Excelente. Foi um dos períodos mais importantes na construção de minha visão de mundo. Beneficie-me muito de, a partir do Mali, visitar outros países e tecer reflexões comparativas. Em geral, os aspectos físicos e naturais de um continente velho, o primeiro a sofrer intervenção de uma nova espécie, mostram as conseqüências dessas intervenções. As culturas africanas são velhas e as conseqüências dos encontros com outras culturas ficam mais evidentes. Nesse aspecto, o Mali, por sua situação geográfica central, é particularmente notável. Mas, sem dúvida, a maior experiência foi do ponto de vista humano. Chegar e ser recebido com tanta cordialidade, em condições que tornariam compreensível uma atitude de certa hostilidade, deixou marcas profundas na minha compreensão da natureza humana. A natureza do homem africano ajuda a entender o que é espécie humana. Claro, não posso deixar de mencionar pontos específicos na minha experiência maliana. Particularmente na oportunidade que tive de observar a geração, a organização intelectual e social, e a difusão do conhecimento que responde ao pulsão de sobrevivência, particularmente à necessidade de se criar um sistema de produção. Já o pulsão de transcendência, notei que foi profundamente afetado pelos encontros com catequizadores de religiões provenientes de um Deus único, especificamente islamismo e cristianismo (não notei judaísmo nos países que visitei). Conseqüentemente, a ciência e a tecnologia tradicionais do Mali, particularmente a arquitetura, como em todas as culturas elaborada em resposta aos pulsões de sobrevivência e de transcendência, sofreram em processo de interrupção e, num certo sentido, precisaram recomeçar. Essas observações e a análise desses fatos foram responsáveis pelas minhas primeiras idéias para uma teoria de conhecimento transdisciplinar e transcultural, substanciada no Programa Etnomatemática. 5- Quais as características da população discente africana, em comparação com a brasileira? No nível em que lecionei, o quadro é o mesmo na África, no Brasil e nos Estados Unidos. Embora envolvido menos diretamente em outros países, vejo que o quadro é o mesmo. Nas escolas pré-universitárias (fundamental e média), a população discente parece ser mais consciente na África. Mas é muito difícil ir além de uma impressão que seja assim. Comparações são muito difíceis, sobretudo para quem, como eu, tive experiência muito limitada com as escolas africanas dos níveis fundamental e médio. As visitas que faço a escolas desse nível são, sempre, em todo o mundo e inclusive no Brasil, em condições muito especiais. 6- O que o Brasil tem a aprender com as culturas africanas, em especial com aquelas com as quais o Sr. teve mais experiência, tanto de vida quanto como educador? Acredito que a resposta a esta questão está nas respostas anteriores. Mas resumindo em poucas palavras: vi muito respeito e solidariedade para com o próximo, particularmente os do seu clã. Um exemplo: estive no Mali durante a grande crise (fome) no Sahel. Visitando meus amigos, era comum ver nos quintais e jardins tendas acomodando os parentes que vinham do Norte. Qual o conceito de parente? Eles se identificam pela aceitação simbólica de algo como um tabu. Por exemplo, nessa simbologia ancestral, meu aluno falava em crocodilo. E o nome tinha algo a ver com isso. Assim, todos os de nome Traoré teriam uma ligação ancestral. O mais notável é a responsabilidade familiar, no sentido mais usual de família (pai, mãe, filhos, sobrinhos, netos). O pai é o chefe de família, responsável por tudo. Num determinado momento se “retira”, isto é, para de trabalhar, e o responsável por tudo passa a ser o filho mais velho. O conceito de previdência social, visando aposentadoria e outras coisas, é vazio na sociedade tradicional africana. Isto está passando por transformações e, conversando com meus alunos e amigos, notei um descontentamento dos filhos mais velhos, uma hesitação mesmo em assumir a família. Uma saída tem sido emigrar. Vi na África um conceito de homem, procurando equilibrar e deixando aflorar e conviver, num mesmo, indivíduo, qualidades tão comuns à espécie, tais como doçura e violência, alegria e tristeza, esperança e fatalismo. As tradições africanas revelam o ser humano em toda sua plenitude. Nota-se que a pureza total do convívio do bem e do mal, está dando lugar à supremacia do bem, que é a convenção mais cruel da espécie. Eu lamento isso!