Apesar de não ser tradicional na literatura árabe, o romance adquiriu grande popularidade em países de expressão árabe no século 20. Esse gênero literário apareceu no norte da África e no Oriente Médio devido à influência de obras estrangeiras, sobretudo européias.
No século 19, um projeto reformista se propôs a promover uma renovação árabe na ciência e na literatura, após o período de estagnação que marcou o jugo otomano. Esse movimento de renovação se verificou em diversos países árabes, mas de forma especial no Egito e no Líbano.
O egípcio Rifaa Rafi Badawi al Tahtawi (1801-73) liderou, em 1826, uma expedição científica enviada à França pelo paxá Muhammad Ali. Ao retornar ao Egito, Tahtawi traduziu e fez traduzir para o árabe diversas obras (manuais escolares e universitários nos anos 1830-1840 e códigos jurídicos nos anos 1870, entre outras). No caso do romance, a influência da literatura traduzida -majoritariamente do francês- foi determinante.
No início do século 20, alguns escritores tentaram escrever romances, mas com uma técnica ainda deficiente. Nas décadas de 30 e 40, destacaram-se autores que tinham sido educados no Ocidente ou haviam tido contato com a literatura ocidental, como Mahmud Taymur, Tawfiq al Hakim e Taha Hussayn. Eram escritores que usavam técnicas ocidentais na construção das personagens e retratavam a sociedade de forma mais complexa.
O movimento de modernização literária, na prosa, atingiu seu nível mais elevado de sofisticação com Naguib Mahfuz, que recebeu o Prêmio Nobel de literatura em 1988. Nascido em 1911 no bairro de Gamaliyya, na parte antiga da cidade do Cairo -presente, com sua célebre mesquita Sayyidina al Hussayn e suas ruelas próximas em vários de seus romances-, Mahfuz se formou em filosofia, na Universidade do Cairo, em 1934. Começou a escrever aos 17 anos e, desde então, tornou-se o principal romancista árabe e uma influência fundamental para várias gerações de escritores.
Segundo o crítico literário egípcio Ibrahim Abdulmeguid, “Naguib Mahfuz é, sem dúvida, o fundador do gênero romance na literatura árabe (...) inclusive trazendo à memória membros tão destacados da geração anterior como Tawfiq al Hakim, Mahmud Taymur ou Hussayn Haykal, pois o papel desses autores no campo do romance foi menor em relação ao que desenvolveram em outros espaços da literatura” (1). Tawfiq al Hakim destacou-se no âmbito do teatro; Mahmud Taymur, no conto; e Haykal promoveu uma importante renovação do pensamento político.
Chamado por vezes de “Dickens do Cairo” e “Balzac do Cairo”, Mahfuz moldou o romance árabe e contribuiu para sua evolução. O autor relata a história e a sociedade do Egito do século 20 em mais de 50 obras, entre romances, antologias de contos, roteiros de filmes e adaptações teatrais. Mahfuz recorre a história de seu país a partir da visão doméstica de um egípcio lúcido por meio de diversas técnicas narrativas que evoluem com seu desenvolvimento intelectual.
Em 1932, traduziu do inglês para o árabe Ancient Egypt (1912), de James Baikie (em árabe, recebeu o título de Misr al Qadima). Em 1938, escreveu uma série de contos sobre a situação da sociedade egípcia às vésperas da Segunda Guerra Mundial.
Seus três primeiros romances (Ironias do destino, Radubis e A batalha de Tebas), publicados entre 1939 e 1944, seguem o modelo de romance histórico. Situam-se na época dos faraós e respondem ao nacionalismo egípcio exaltado por autores como Taha Hussayn e outros. Esse movimento literário de temática faraônica comporta um certo romantismo cujo objetivo é glorificar o Egito contemporâneo por meio da grandeza do passado. Os leitores acolhem mal esses romances. Mahfuz publicou seus três primeiros romances sob o pseudônimo de “as-sabir” (o paciente, o sereno) e, mais tarde, de acordo com Ryad Asmat, “depois de se sentir mais confiante, passou a utilizar seu nome verdadeiro” (2).
Em 1945, Mahfuz adotou outro tema: a descrição da vida cotidiana em bairros egípcios pobres ou burgueses que ele conhece bem. A partir daí, a maioria de seus romances se passa no segundo quarto do século 20 (1925-1950).
Seus primeiros livros trazem títulos topográficos como Al Qahira al Gadida (O Novo Cairo, 1945), Khan al Khalili (1946) e O Beco do Pilão (1947). O autor se destaca na publicação de romances realistas: As-Sarab (A Miragem, 1948), Bidaya wa Nihaya (Início e Fim, 1949), Entre Dois Palácios (1956), Palácio do Desejo (1957), As-Sukkariyya (O açucareiro, 1957) etc. Estes três últimos compõem a chamada Trilogia do Cairo.
Nesses romances, o tema constante é o da inadequação entre o espaço social egípcio, com suas ruas miseráveis, e o modo de vida “moderno”. A extinção de um mundo tradicional e a escalada de uma juventude ávida por dinheiro e poder (como a personagem Hamida, em O Beco do Pilão) levam à constatação implícita de um fracasso. Um pessimismo difuso, oposto ao otimismo tônico de seu compatriota Taha Hussayn, marca as obras realistas de Mahfuz. Sua expressão artística, a princípio neutra na descrição e na crítica, adota progressivamente o vocabulário da angústia e do desespero. Ela se adapta aos tempos de crise e de mudanças sociais, à migração acelerada em direção às grandes cidades e às relações de desconfiança e cautela que opõem as pessoas a uma sociedade de aculturação. Devido a tudo isso, o espaço onde vivem as personagens adquire uma importância tão expressiva em sua obra. O simples deslocamento de um bairro a outro produz uma ruptura cultural e a entrada numa modernidade discutível, mas inevitável.
Depois de concluir a Trilogia do Cairo, em 1957, Mahfuz reduz sua produção literária nos sete anos seguintes. Tendo se tornado um funcionário público no Ministério da Cultura, adota uma espécie de silêncio de “observação”, como outros grandes escritores. No mesmo período, Taha Hussayn, Tawfiq al Hakim e Mahmud Taymur também param de escrever. Como a revolução anunciava uma reviravolta na sociedade egípcia (tema principal de seus romances), Mahfuz aguarda e observa as transformações sociais. O silêncio assinala a necessidade de uma mudança no discurso. Encerrado esse período de silêncio, Mahfuz passa a retratar a desilusão dos egípcios e suas críticas ao regime do presidente Gamal Abdel Nasser. Em 1967, quando Israel ocupa a península do Sinai, a faixa de Gaza, a Cisjordânia e as colinas do Golã, Mahfuz observa um silêncio absoluto durante dois anos. Quando retoma suas atividades, em 1969, publica contos com um estilo hermético e obscuro que a crítica se recusa a interpretar. Após 1973, quando países árabes obtêm uma vitória parcial sobre Israel, ele readquire a confiança e publica vários romances. Em 1979, depois de apoiar o presidente Anwar Sadat no acordo de paz com Israel, seus livros são banidos -temporariamente- em muitos países árabes.
Em O Beco do Pilão, Hamida representa o Egito, sua tristeza é a do Egito, e o romance se passa durante a Segunda Guerra Mundial (que termina em seu decorrer). Como Hamida, o Egito sucumbe à tentação por causa da crise econômica.
Em Bidaya wa Nihaya (Início e Fim), ele descreve o sofrimento e a opressão da classe média. Os que têm dinheiro compram e exploram os que não têm. Na obra, Hussayn quer se revoltar contra sua condição. Lê obras sobre o socialismo e considera este o regime capaz de salvar a sociedade em que “a fortuna e as profissões respeitáveis são hereditárias”. Na Trilogia do Cairo, o autor estuda a transformação das idéias e dos costumes da classe média egípcia durante quase 30 anos (1917-1944).
As personagens de Mahfuz vivem direcionadas para o passado. Algumas o rejeitam e querem esquecê-lo. Outras o consideram um consolo para sua situação atual. Entre as que querem se livrar do passado, é possível citar Hamida, em O Beco do Pilão, Saniyya, em Hubb tahta al Matar (Amor debaixo de chuva), e Said, em Al Liss wal Kilab (O ladrão e os cães). Outras personagens atuam como guardiãs do passado no presente. Por exemplo, Issa, em As Codornas e o Outono, e Abbas al Helu, em O Beco do Pilão.
A estética de Mahfuz, como a de Proust, fixa-se na separação entre o mundo da realidade e o dos sonhos; em outras palavras, é a incompatibilidade entre o mundo dos desejos e o da realidade, ou seja, do futuro e do presente, que é o objeto do romance. Várias situações nos romances de Mahfuz ilustram o conflito entre o mundo pensado e o mundo vivido. Destacam-se os sonhos de Hamida, de Helu e de Hussayn Kircha em O Beco do Pilão. No fundo, o mundo da verdade é o das lembranças, pois ele está protegido pelo abrigo do tempo. É justamente por isso que a evocação do passado e a lembrança têm lugar primordial na obra de Mahfuz, sem que ele deixe de evidenciar sua preocupação com o futuro do Egito.
De caracterização marcadamente realista, suas obras oferecem uma visão das práticas e dos costumes de seu país. Seus romances testemunham lutas individuais e coletivas contra a opressão, a submissão política, o sofrimento e a morte e proclamam o direito à liberdade e à felicidade.
Enquanto Mahfuz é lido no Egito também como uma espécie de historiador do Egito contemporâneo, no exterior é apresentado como o “etnógrafo do Cairo”, e várias das traduções de seus textos seguem o que Bourdieu chama de “as regras da arte orientalista” (3).
Uma análise da tradução e da recepção da obra de Mahfuz na Europa mostra que seu sucesso se deve não apenas à dialética do “particular e do universal” bastante evocada pelos críticos árabes e não-árabes após o prêmio Nobel como também à flexibilidade de uma obra que permite uma recepção exótica.
A função do diálogo é imprimir vivacidade ao texto, aproximar o leitor do cotidiano, reforçar a necessidade de realismo e permitir um maior conhecimento das personagens. Em O Beco do Pilão, por exemplo, a presença do narrador é bastante pronunciada nos diálogos, que ajudam a promover discussões políticas, imergem os interlocutores no campo espiritual e agem como catalisador de humor, como na intervenção do xeque Darwich quando Abbas al Helu finge ter comprado um sudário para cobrir o corpo do amigo (como rege o costume entre os muçulmanos), tio Kamil, quando ele morrer: “Você tem sorte. O sudário é o véu da outra vida. Desfrute do sudário, tio Kamil, antes que ele desfrute de você, que vai ser um bom prato para as minhocas. Vão alimentar-se de sua carne tenra como se fosse um doce de basbussa e ficar gordas que nem rãs, que em inglês se diz frogs e soletra-se: F-R-O-G-S” (4).
O autor foi vítima de um atentado que quase lhe custou a vida em 1994. Quando saía de sua casa no Cairo para dirigir-se ao Café Casino Qasr an-Nil (um dos cafés onde encontrava inspiração para criar personagens), um egípcio de 22 anos, membro de uma organização islâmica extremista, aproximou-se dele. Fingindo querer cumprimentá-lo, deu-lhe várias punhaladas no pescoço; o ato foi condenado por importantes líderes muçulmanos, incluindo o grão-mufti Muhammad Sayyid Tantawi, da Universidade de Al Azhar. Desde então, devido às seqüelas físicas, Mahfuz, hoje diabético e parcialmente cego, não tem escrito mais (a não ser muito eventualmente artigos para jornais a fim de se pronunciar sobre temas controversos) nem deixado o Egito.
Apesar da produção limitada pela saúde frágil nos últimos anos, Mahfuz, 92, continua a ser uma influência primordial para escritores africanos e de diversas outras regiões do mundo.
2. Asmat, R. Ma wara’ al waqiiyya (Por detrás do realismo).Damasco, Dar al Fikr, 1997
3. Bourdieu, P. “Distinction”. In: Critique Sociale du Jugement. Paris: Minuit, 1979, p. 76.
4. Tradução do autor. O Beco do Pilão. São Paulo: Editora Planeta, 2003.