“O africano é um crente nato, e é esta fé irremovível que lhe permite sobreviver e suportar as piores provações.”
O maliano Amadou Hampâté Bâ é considerado pela maioria dos africanistas como um verdadeiro repertório vivo da tradição africana. Como o nigeriano Boubou Hama, que vive num semi-retiro em Niamey, ou o mauritaniano Oumar Ba, que conduz pesquisas com colaboradores do Museu de Nouakchott, Amadou Hampâté Bâ conhece com perfeição os clássicos da época pré-colonial.
Depositário de um patrimônio cultural e religioso de importância considerável, discípulo do marabu Tierno Bokar, a quem consagrou um livro, Amadou Hampâté Bâ sempre se apresentou como guardião do diálogo entre as culturas e as religiões, pregando a tolerância e o cosmopolitismo. Muçulmano praticante, mas adepto decidido do ecumenismo, acredita firmemente que, a despeito do materialismo que se espalha pelas civilizações contemporâneas, o espiritualismo acabará por triunfar. Chamado de "deão" por seus pares, e mais simplesmente de "tio" por seus familiares, esse patriarca encarna um certo modo de vida africano.
Qual foi seu primeiro contato com o mundo branco?
Em 1905, quando eu tinha cinco anos, me encontrava em Bougouni para onde meu pai adotivo Tidjani Amadou Ali, antigo chefe provincial, havia sido deportado pelas autoridades coloniais. Foi ali que eu vi um europeu pela primeira vez. Era o comandante de Courcelles, o único europeu de todo o distrito. Acompanhado de seu intérprete e de um guarda, ele passava de casa em casa para proceder ao recenseamento da população.
As famílias haviam ordenado a todas as crianças com menos de dez anos que se escondessem. Mas, atiçado pela curiosidade, pedi a minha "mãe-criada" isto é, a criada que cuidava de mim desde meu nascimento que me escondesse nas pregas do seu boubou para que eu pudesse me aproximar do branco. Eu queria tentar tocá-lo. Tinha ouvido dizer que os brancos eram "filhos do fogo", que eram "brasas vivas". Assim, estava convencido de que eles queimavam... Na verdade, os africanos batizaram assim os europeus porque perceberam que ficavam vermelhos sempre que contrariados.
Quando todos os membros da minha família se reuniram no pátio, minha mãe-criada abriu as dobras do seu boubou e me escondi por trás dela. Nós nos aproximamos do comandante, que escrevia os nomes num grande livro de registro. Quando cheguei bem perto dele, estiquei a mão bem devagar e encostei bem de leve meu dedo em seu antebraço, enquanto ele escrevia. Ao contrário do que esperava, não senti nenhuma queimadura. Foi uma enorme decepção. A partir de então, para mim, o branco era "uma brasa que não queima". Foi esse meu primeiro encontro com um europeu.
E quando o senhor veio à Europa pela primeira vez?
Foi em 1951. Eu trabalhava em Dacar, no IFAN (Institute Français de l'Afrique Noire), fundado pelo professor Théodore Monod. Destacando-me para seu serviço em 1942, ele me livrou das garras da administração colonial de então, que me perseguia devido a minha filiação à congregação islâmica dita hamalista, suspeita, aliás injustamente, de atividades antifrancesas.
Nessa época, a UNESCO ofereceu uma bolsa que consistia de uma viagem de um ano à França, com todas as despesas pagas. Para consegui-la, era preciso ser africano, ter pelo menos quarenta anos, ter sido criado na tradição africana, saber escrever em francês, mas não ter estudado na França, e não possuir nenhum diploma universitário.
Entre todos os que correspondiam a essas condições, éramos três que nos destacávamos mais e portanto éramos mais indicados no Sudão francês: Fily Dabo Sissoko, Mambi Sidibé e eu. Mas o primeiro tinha acabado de se eleger para a Assembléia Nacional francesa, e o segundo estava gravemente doente. Assim, fui eu que, com a ajuda de Théodore Monod, consegui essa bolsa.
Em Paris, os funcionários da UNESCO me disseram que não esperavam de mim nenhum trabalho particular, e que eu estava inteiramente livre para fazer tudo que quisesse, com todas as despesas pagas. Eu não sei bem o que é que esperavam de um africano tradicional solto sozinho na grande cidade... De qualquer modo, minhas primeiras visitas foram ao Museu do Homem e ao Collège de France. Foi o início das minhas relações com o professor Massignon, e também da minha colaboração com os etnólogos especialistas do departamento de África negra do Museu do Homem: Marcel Griaule, Tibiana, Denise Paulme, Germaine Dieterlen...
Os europeus provocaram sérios traumatismos culturais na África?
É claro! Nenhum colonizador é filantropo. Todos os que colonizam têm um complexo de superioridade. E como poderia ser diferente? Não é uma questão de cor da pele, pois os toucouleurs (mestiços) que colonizaram os povos do Macina, no Mali, também se comportaram como dominadores no campo cultural.
A vontade de dominar o pensamento era evidente, por exemplo, entre as autoridades coloniais que criaram em Kayes a "escola dos reféns", para onde eram enviados todos os filhos dos chefes e dos notáveis. O uso das línguas africanas era nelas estritamente proibido, em favor do uso exclusivo da língua francesa. Qualquer aluno que infringisse essa regra era coroado com o "símbolo" da cabeça de burro e privado do almoço.
Uma grande perturbação no campo cultural foi a ruptura progressiva da transmissão dos conhecimentos tradicionais. Até então, essa transmissão era feita oralmente de uma geração a outra por meio das iniciações africanas regulares, das iniciações de oficio e das escolas corânicas. As oficinas artesanais, por exemplo, eram verdadeiras escolas tradicionais, onde se ensinava não apenas uma tecnologia, mas todo um conjunto de conhecimentos científicos e culturais ligados ao oficio. O aprendiz de ferreiro, por exemplo, que trabalhava silenciosamente ao lado de seu mestre, tinha acesso, através do simbolismo dos instrumentos da forja, a uma explicação particular do mundo e do papel do homem no universo, papel fundado na idéia de responsabilidade e de interdependência de todas as coisas. Ele recebia além disso um conjunto de conhecimentos concretos sobre geologia, mineralogia, botânica, e toda uma educação do comportamento.
As escolas artesanais tradicionais ferreiros, tecelões, sapateiros, trabalhadores da madeira, narradores..., reunidas em torno dos mestres, eram, assim, lugares de transmissão de toda uma cultura. No entanto, por todos os meios a administração colonial esforçou-se para desencorajar essas atividades. Aos ferreiros, por exemplo, era proibido fabricar certos objetos, especialmente fuzis ou facões, a fim de nos incitar a comprar artigos manufaturados provenientes da metrópole. Aliás, na época éramos literalmente inundados por grossos catálogos da Manufatura de armas e das bicicletas Saint-Étienne, cujas imagens nos fascinavam e nos faziam sonhar.
Era um problema grave, porque assim foi sufocada qualquer veleidade criativa de nossos artesãos, que teriam sido perfeitamente capazes de adaptar sua arte às novas necessidades. Citarei o exemplo de um ferreiro dogon que havia fabricado sozinho fuzis em tudo semelhantes aos europeus, e que não apenas foi condenado a cinco anos de prisão como também atingido por uma proibição vitalícia de exercer seu oficio.
A ruptura na transmissão dos conhecimentos de uma geração a outra se acentuou com a luta da administração contra as escolas corânicas e o esforço de escolarização em língua francesa. Mas a grande quebra se produziu por ocasião da guerra de 1914, mais especialmente em 1917, quando quase todos os nossos jovens, fossem voluntários ou recrutados, foram enviados para combater na França. De um só golpe, os velhos mestres foram privados da maioria dos aprendizes que teriam podido continuar seu trabalho e assegurar, por sua vez, a transmissão e a salvaguarda do patrimônio cultural. Muitos não retomaram. Quanto aos que voltaram, não eram mais os mesmos homens.
Traumatismo cultural, ainda, foi o fenômeno de aculturação que, em seguida, marcou todos os nossos jovens que estudaram nas universidades ocidentais, cavando assim entre os nossos "intelectuais" e a massa africana um fosso cada vez mais profundo. Como diz o provérbio africano, "o criador sofre pelo educador": porque, afinal, somos sempre filhos de nossa escola...
Traumatismo cultural, enfim, foi esse lento trabalho de despersonalização que se realizou ao longo das décadas, a ponto de os africanos terem chegado a duvidar de seus próprios valores e de não conceber mais a evolução ou o progresso fora da imitação total dos antigos colonizadores, e em todos os campos. Quantos problemas atuais, na Africa, não se devem a esse fenômeno... pois, como diz o provérbio, "um pedaço de pau, por mais que flutue na água, nunca se tornará um crocodilo".
A expansão do catolicismo prejudicou gravemente as religiões tradicionais?
Tanto católicos quanto protestantes ou muçulmanos entraram em competição com as religiões tradicionais para tentar substituir as crenças destas pelas suas. Qualquer expansão de uma das religiões monoteístas reveladas prejudica necessariamente as religiões tradicionais. No entanto, por ser mais realista, o Islã que não deve ser confundido com o que se chama hoje de “arabismo” se adaptou melhor. Quando um certo costume não fosse contra um dos onze artigos fundamentais da fé, ele admitia esse costume pelo menos na África negra, e de modo geral. Assim, por exemplo, os ofícios tradicionais, com as iniciações e as transmissões de conhecimentos que lhes são próprias, se mantiveram no interior da sociedade muçulmana.
Ignorando o que ocorre em relação a isso nas regiões convertidas ao catolicismo, não sou a pessoa mais indicada para responder a essa pergunta.
A ascensão do Islã militante é inquietante para a África?
É preciso definir melhor os termos "Islã militante". Militante, por que não, mas por que tipo de Islã? Não se deve generalizar a partir do comportamento de alguns, que aliás, a seu modo, se limitam a exprimir sua própria compreensão, talvez limitada, do Islã.
Convém distinguir entre os que praticam o islamismo e se esforçam para integrar os valores deste em sua própria vida, a fim de transformar a si mesmos, e os que o utilizam, consciente ou inconscientemente, em proveito de uma política ou de seus interesses do momento, em especial os que pregam a guerra santa a propósito de qualquer situação. No que me concerne, só admito uma espécie de guerra santa: a que devemos travar contra nossas próprias paixões, a que o profeta Maomé chamava de “grande guerra santa”.
Do meu ponto de vista, militar pela purificação do comportamento dos muçulmanos e pelo retorno às fontes é uma boa coisa, mas com a condição de não transformar isso numa bandeira para justificar a violência e a intolerância que vão contra às palavras do próprio Deus no Corão: "Minha misericórdia abraça todas as coisas", ou "Minha misericórdia supera meu rancor", ou ainda: "A cada povo seu livro sagrado", sem esquecer o exemplo do Profeta, que, em seu retorno triunfal a Meca, perdoou seus inimigos mais ferozes, permitindo assim, pela extinção dos rancores, a unificação do povo árabe, o que, na época, não era pouca coisa...
Como discípulo de um homem, Tierno Bokar, que passou toda a sua vida pregando a tolerância e o amor por todos os homens em nome dos princípios fundamentais do Islã, só posso aprovar qualquer ação de revitalização do Islã que caminhe nessa direção e, por outro lado, deplorar qualquer progresso da intolerância, sob qualquer forma.
O senhor acha que o catolicismo tem um futuro promissor na África?
O futuro pertence a Deus, e nossos prognósticos mais bem fundamentados muitas vezes são desmentidos pelos fatos. Assim, não posso me arriscar a responder a esta pergunta pela afirmativa ou pela negativa. O certo é que a África é, por excelência, um continente de fé, e que o africano é um crente nato, independentemente de qualquer determinação confessional. Toda forma de fé sempre encontrará nele um terreno fértil. Foi aliás essa fé irremovível que lhe permitiu e ainda lhe permite sobreviver e suportar as piores provações.
Aliás, cristãos, muçulmanos e judeus não formam os três ramos da mesma árvore? De minha parte, considero o judaísmo, o islamismo e o cristianismo como os três irmãos de uma família polígama onde só há um pai, mas onde cada mãe criou seu filho segundo o costume que lhe é próprio. Cada uma das esposas falou do esposo para seus filhos de acordo com sua própria concepção.
É verdade que, se eu só escutasse meu sentimento pessoal, eu poderia dizer que prefiro ver o Islã triunfar na África; mas não quero dar atenção a meu sentimento, prefiro ouvir a razão. E a razão me diz que o que é mais importante hoje, para trazer a paz a um mundo tão perturbado e um progresso à consciência humana, não é ver esta ou aquela religião triunfar sobre as outras, mas ver desenvolver-se entre as diferentes religiões assim como entre todos os homens um espírito de tolerância, de compreensão mútua e de procura do que nos é comum.
De todas as mutações sociais ocorridas na África, qual lhe parece a mais importante?
A mais grave de todas me parece ser o esfacelamento da família. De fato, na tradição africana a vida individual não existia: só existia a vida familiar e, por extensão, comunitária, que constituía o próprio tecido da sociedade e garantia a sua salvaguarda.
A noção de família era extremamente ampla na África. Ela se estendia, na verdade, a todo o clã. Outrora, por exemplo, não era apenas o pai, mas todos os homens da geração mais velha da aldeia que respondiam pela educação das crianças. Todos eram responsáveis por elas. Da mesma forma, quando vários jovens de uma aldeia casavam-se com moças de outra aldeia, eram todas as populações dessas duas aldeias que se tornavam parentes, com todos os deveres recíprocos de ajuda mútua, de hospitalidade e de paz que daí decorriam.
A solidão era desconhecida: a mulher viúva ou divorciada, o velho, o deficiente físico, não eram abandonados à própria sorte. O pouco que cada família possuía era dividido com todos os seus, assim como com os hóspedes de passagem, de modo que, se havia pobreza, ela era coletiva, nunca individual.
O individualismo para o qual tendemos hoje outro traumatismo psicológico de importância capital desfaz pouco a pouco todos os laços tradicionais que unem o homem ao homem e que, a despeito de certos excessos, permitiam a sobrevivência da sociedade africana.
E entre as mudanças econômicas, qual foi a mais importante?
A intrusão do dinheiro. Antes da chegada dos europeus, a fortuna, ou a posse de bens materiais, nunca dava "classe" a ninguém. A riqueza era considerada como um sangramento de nariz, nada mais; quer dizer, como um fato que podia ocorrer a qualquer um, em qualquer lugar e a qualquer momento, e parar sem razão, de modo igualmente inopinado.
O que classificava o homem era o seu valor intrínseco e o seu nascimento. Infelizmente, com a invasão do dinheiro, foi a riqueza que se tornou, para muitos, sinal de força e de nobreza. Atualmente, a procura desenfreada do dinheiro substituiu quase tudo mais. O desejo de possuir vem apagando pouco a pouco o sentido tradicional do compartilhamento.
O que abalou realmente a sociedade africana foi a procura de quatro coisas: uma conta bancária, uma mansão, uma plantação em que outros trabalhem para o dono, e um carro . (No original francês, "Les quatre V": le Virement, la Villa, le Verger et la Voiture.(N.T.). Os velhos dizem: juntem esses "quatro V" e acaba surgindo um quinto: a Vilania.
Também não se pode deixar de mencionar o abalo das estruturas agrárias provocado pelo desenvolvimento intensivo das culturas industriais, em detrimento das culturas de víveres. As pessoas passam fome ao lado de campos cujas colheitas são vendidas para o exterior. Com as divisas obtidas importamos cereais, quando poderíamos, como fazíamos no passado, produzi-los nós mesmos.
O senhor se preocupa com a multiplicação das ditaduras africanas?
E como não se preocupar? Qualquer ditadura preocupa, seja na África ou em outro lugar, sobretudo quando constatamos que a maioria dessas ditaduras só parece ter como finalidade satisfazer um punhado de homens, ou uma certa categoria de homens, e nunca o povo em seu conjunto. O povo, aliás, sente-se geralmente estranho ao que acontece na cúpula e às lutas pelo poder. Sejam intelectuais ou militares, para ele são toubaboumoro, "gente dos brancos", isto é, gente que imita os brancos, pensa e age como os brancos, e não segundo a tradição africana.
Na verdade, sua pergunta chama uma reflexão sobre a natureza do poder na África. Oh, é claro que os chefes tradicionais do passado também detinham um poder enorme; mas, na maioria das vezes, esse poder era estritamente regulamentado pela tradição, e portanto não podia tornar-se absoluto nem arbitrário. Os chefes tradicionais eram considerados receptáculos de um poder divino, e deviam observar, se queriam permanecer no poder, regras de comportamento extremamente estritas; havia múltiplos modos de controlá-los.
Seu poder se limitava a certos setores. O moro naba, por exemplo, apesar de todo o seu poder, não podia modificar a administração das terras, que pertenciam ao domínio do sagrado. O que contava para as populações não era tanto a personalidade própria do chefe que detinha o poder quanto a boa aplicação das regras tradicionais, que se consideravam capazes de manter a paz e a prosperidade no Estado. E mesmo que um homem audacioso tomasse o poder por uma espécie de golpe de Estado, ele também era obrigado a se submeter a essas regras. Se não, mais dia menos dia ele era discretamente suprimido...
É verdade que esses tempos terminaram, ou estão em vias de terminar. Mas caímos no excesso inverso. Hoje, o poder, com raras exceções, está totalmente cortado das populações de base, que não se reconhecem nele. Liberado das antigas regras e dos antigos constrangimentos, baseado como é o caso de certas ditaduras apenas na força das armas, ele não conhece mais limites.
Mas mesmo sem ir tão longe, já há um corte total entre a base da população africana e a administração moderna. Quase sempre, esta é uma cópia, uma paródia, da administração dos colonizadores, ou dos ocidentais em geral. É por isso que ela não responde às realidades fundamentais da massa africana e não pode resolver seus problemas.
Às vezes me surpreendo sonhando com Estados africanos em que assembléias nacionais modernas, encarregadas de resolver os problemas globais, teriam ao seu lado uma espécie de "conselho dos anciãos" em que teriam assento os tradicionalistas representando as diferentes etnias, homens conhecedores da realidade dos costumes locais, possuindo experiência de vida e das relações humanas.
Quantos conflitos, que hoje acarretam processos custosos e ineficazes, poderiam ser facilmente resolvidos, de forma amigável, pelas vias tradicionais, se se apelasse aos que conhecem essas vias e podem pô-las em funcionamento!
O que o senhor acha da unidade africana?
Constato principalmente um profundo fosso entre as palavras e a realidade. Canta-se a unidade em todos os tons, mas o que se faz para realizá-la concretamente? É normal que africanos se expulsem uns aos outros de seus respectivos territórios? É normal ser obrigado a mostrar um passaporte e um visto para ir de um país a outro, quando antigamente, antes e mesmo durante a colonização, podia-se circular livremente, ou ao menos muito facilmente, de uma região a outra?
De fato, a unidade africana será realizável? Ela poderia tê-lo sido às vésperas das independências, isto é, antes que qualquer antiga colônia se transformasse em entidade nacional, com contornos bem traçados e prerrogativas bem definidas. Mais que unidade, o que seria talvez possível hoje seria uma federação de Estados.
Na verdade, o conceito de "nação" é um conceito moderno, de importação ocidental. A África conheceu Estados, reinos, impérios, mas não "nações" no sentido geográfico e moderno da palavra. Os grandes conjuntos que se reivindicava e aos quais se sentia pertencer eram as etnias. Estas, muitas vezes móveis, podiam cobrir vastos territórios. Um peul do Macina podia viajar para a Costa do Marfim; lá, encontrava outros peúles e se sentia em família. Um senufo da Costa do Marfim que viesse para o Mali encontrava os seus. Cada grande cidade comportava bairros consagrados às diferentes etnias, de maneira que o viajante tinha certeza de sempre encontrar nelas seus irmãos.
No antigo Estado de Gana, por exemplo, os peúles eram cidadãos de Gana, mas continuavam regidos pela lei peul, que correspondia a suas necessidades, a sua mentalidade e a sua realidade sociológica. O ideal e por que, também neste caso, não sonhar? seria uma espécie de "Estado de etnias unidas", em que cada etnia conservaria suas particularidades, em que seus problemas internos seriam resolvidos pelas leis consuetudinárias, enquanto uma lei geral válida para todos manteria o funcionamento harmonioso do conjunto.
O senhor considera portanto que a "África negra começou mal"?
Se começar mal é começar sem fazer um levantamento de seus meios, pesar suas possibilidades, nem determinar sua meta, parodiando seus antigos senhores sem se basear em seus próprios recursos humanos, culturais e intelectuais, então eu não diria que a África começou mal, mas que a fizeram começar mal. A África não escolheu, no início, a situação que lhe deram. Eu gostaria que ela revivesse seu começo, que ela parasse, que ela se retomasse, que ela medisse suas perdas e seus ganhos, que ela soubesse o que é importante para ela e o que não é, que ela fizesse a distinção entre parecer e ser.
Mas a dificuldade é que a África não pode viver sua vida sem levar em consideração as contingências internacionais: aliás, nenhum país pode mais, no mundo de hoje. Somos todos interdependentes. A revisão do início, bem como a revisão do processo em curso, precisa ser universal, e não reservada apenas à África. É um problema mundial.
No fim das contas, eu me pergunto se é apenas a África que começou mal, ou se não é toda a época moderna que começou mal.
O rumo geral do universo o preocupa?
Não é o rumo geral do universo que me preocupa, mas o rumo de uma certa parte da humanidade, o afastamento do respeito aos direitos humanos e aos valores humanos, o primado, em muitos lugares, da força pura, da força desumana das armas modernas que não é temperada por nenhuma regra de honra ou de cavalaria, assim como a corrida armamentista, o aumento dos estoques de armas, uma espécie de inconsciência geral quanto às conseqüências distantes de nossos atos...
Mas não há apenas aspectos negativos na sociedade humana de hoje. Há também, em muitos, uma tomada de consciência pelo reconhecimento e pela defesa dos direitos dos homens, uma aspiração à compreensão mútua, à tolerância, à ajuda mútua. Casos admiráveis de devotamento se manifestam aqui e ali.
Assim, nada de desespero nem de catastrofismo. As duas correntes existem: a positiva e a negativa. Em toda parte há homens que lutam para despertar as consciências, e eles encontram quem os ouça. O que é importante é nunca deixar de lutar. Qualquer esforço conta. A aparente pequenez de um esforço não impede que ele possa ter conseqüências consideráveis. Como dizia meu mestre Tierno Bokar: apesar de sua envergadura gigantesca, o baobá é engendrado por uma semente que não é maior que a um grão de café.
Entrevista a Philippe Decraene, 25 de outubro de 1981.