2004.2005    Imaginário, Áfricas, X (10)

Os Akan-Agni Morofoé da Costa do Marfim (África do Oeste) frente à emergência e à disseminação do HIV/Aids
Almeida, Acácio

Os Akan-Agni-Morofoé (1)

Este estudo fundamenta-se em 10 meses de trabalho de campo realizado em 2002 na Costa do Marfim (2) (África do Oeste), e dá continuidade ao exame das experiências sociais decorrentes da emergência e expansão do HIV/AIDS, um novo e importante elemento impactador da realidade na África subsaariana, e sua relação com práticas sociais segundo a visão Akan-Agni Morofoé, grupo pertencente à família lingüística Kwa Tano, subgrupo das línguas do niger-congo (3), faladas do sudeste ao leste da Costa do Marfim, sul do Gana, Togo, Benin e Nigéria.
Os Akan da Costa do Marfim - numericamente a mais importante constelação do país - estão etnicamente e espacialmente organizados da seguinte maneira: a partir da fronteira leste, que divide a Costa do Marfim e Gana, estão os Abron, os Agni, os Juabem, os Essouma e os Nzima. No centro temos essencialmente os Baoule e no sul, região das lagoas, os Abe, os Abidji, os Aboure, os Akye, os Adiokrou, os Avikan, os Alladian, os Ebrie, os Ewotire e os Ega. (Leite, 1982:290)
Os Agni que ocupam a região leste da Costa do Marfim, fronteira com Gana representam, na atualidade, 4,1% de toda a população da constelação Akan, cerca de 755.365 indivíduos divididos em 5 subgrupos: Beni, Bona, Ndenie, Morofoé e Samwy.
Para os fins propostos neste trabalho, optamos por desenvolver nossas pesquisas de campo na localidade Andé, distante 250 quilômetros de Abidjan. Segundo o censo populacional marfinense, a população de Andé era de 7.610 pessoas em 1998, o que configura uma realidade pouco comum no grupo das localidades Agni que costumam ter algo próximo de 2.500 a 3.000 indivíduos. Parte da população de Andé é representada pelos estrangeiros africanos oriundos de países vizinhos como o Mali e o Burkina Faso, além de grupos da própria Costa do Marfim como é o caso dos Senufo, também considerados estrangeiros(4) pelos Agni já que não possuem qualquer relação com as cadeiras ancestrais o que significa dizer não têm direitos hereditários sobre o poder e sobre as terras.
Considerando a obrigatoriedade de trazer à tona as explicações que a sociedade Agni oferece à análise, tendo como ponto de partida o seu próprio ponto de vista; entender as formas pelas quais a sociedade Agni exterioriza "(...) fatores básicos da consistência social, tais como a materialidade da organização social e suas práticas naquelas instâncias mais decisivas" (Leite, 1993:23); relacionar "a concretude da explicação histórica e a visão de mundo que a orienta, com seus planos menos ou mais aparentes onde se estruturam e se articulam os processos sociais com seus valores, o que supõe a localização do homem no universo (...)"(Leite, 1982:23), organizamos seis categorias de indivíduos para compor a nossa população pesquisada na localidade:
- Os informantes (conhecedores, de maneira ideológica, da história do grupo): As autoridades tradicionistas(5) (o chefe da localidade, os notáveis e outras figuras de reconhecida expressão no conjunto da sociedade). Todos entre 60 e 75 anos.
- Os indivíduos alvo: Pessoas ligadas às práticas autóctones de cura (terapeutas tradicionistas e membros do Komian(6)); Pessoas ligadas às práticas ocidentais de cura (enfermeiros e parteiras); Pessoas direta ou indiretamente envolvidas com a morte e/ou com os ritos funerários; População em geral, os jovens e as crianças.
Introduzidos no cenário das relações sociais de Andé fomos aos poucos, partindo dos temas mais periféricos para os mais centrais, forjando as questões que julgávamos importantes para os objetivos da nossa pesquisa e foi no desejo de encontrarmos algumas respostas que resolvemos primeiramente buscar compreender a organização social, política e econômica da localidade, a noção de pessoa e as representações de saúde e de doença entre os Agni de Andé para somente então depois explorar a problemática do HIV/AIDS na localidade.
As entrevistas e os questionários indicaram a existência de uma visão muito particular sobre o HIV/AIDS, as diferentes formas de transmissão, os cuidados, as práticas, os comportamentos e as atitudes. Para muitos a AIDS é uma doença antiga que foi rebatizada AIDS pela medicina ocidental. Para outros a AIDS é o já conhecido "Babazru"(7). Mesmo reconhecendo a transmissibilidade através de substâncias vitais como o esperma, a idéia central que explica a transmissibilidade se apóia nas práticas de bruxaria.

A noção de pesssoa
 
 Para os Akan-Agni Morofoé o homem é definido como síntese de uma pluralidade de elementos vitais (Leite, 1982, Thomas, 1973), sendo que o preexistente além de fonte originária da energia criadora é também o doador do princípio vital responsável pela vida. No caso dos Agni esta energia vital é chamada "Woa woe".
O homem é constituído de uma pluralidade(8) de elementos vitais naturais, responsáveis pela emersão do homem natural Akan que, em ampla generalização, podemos afirmar é constituído de pelo menos três elementos vitais: AONA, o corpo; WOA WOE, princípio vital de individualização, animalidade e espiritualidade; EKALA, princípio vital que estabelece a imortalidade do ser humano.
Segundo Fábio Leite, o corpo é o "elemento constituinte do homem cujo significado social não pode ser negligenciado. Durante a existência visível, é um elemento de referência histórica, sendo fator de individualização, de trabalho e de reprodução da sociedade, quando serve de veículo para a tomada de consciência das funções sociais do sexo. Está ligado também aos processos iniciáticos que visam introduzir os indivíduos na sociedade de maneira ótima".(Leite, 1982: 52). O Woa Woe é princípio vital de individualização "que sintetiza as várias potencialidades de Aona e lhe permite viver como pluralidade dinâmica. É assim o princípio vital que se relaciona com a energia primordial do qual o preexistente é o detentor por excelência".(Leite, 1982:39). O Ekala é o princípio vital imperecível que sintetiza a idéia de imortalidade do homem natural.   
Para que ocorra a necessária transfiguração do homem natural em homem natural-social concorrem alguns outros elementos de ordem social como o nome, e a socialização / iniciação que sob a interferência precisa da sociedade que realizará a manipulação eficaz dos elementos constitutivos produzirá o ser histórico.
Quando iniciamos nossas conversas com Kabran Kacou(9) a respeito da saúde entre os Akan, em diversos momentos ouvimos dele a expressão "Mendilé" que significa literalmente "comer o mundo". Como não tínhamos até então ouvido aquela expressão, num primeiro momento não demos a ela qualquer valor especial, acreditando que, como já tinha acontecido com os provérbios, aprenderíamos o sentido no momento oportuno.
Aos poucos fomos então nos dando conta, através das palavras e dos ensinamentos do próprio Kabran Kacou, que a idéia de "comer o mundo" está associada à plenitude do ser, sendo a saúde uma de suas expressões, ou seja, a vida. A vida, além de um valor em si mesma, é também o recurso para outros valores e a finalidade e a razão de ser de todas as atividades ligadas ao conhecimento e à economia justificando, por exemplo, a importância que tem a sexualidade, a procriação e a maternidade, seus atores (homem-mulher) e instituições como o casamento e a poligamia. 
Para a visão tradicionista africana em geral e Akan-Agni em particular, a saúde é percebida como o equilíbrio vital do ser humano no harmonioso jogo de todas as suas funções e a doença, a ruptura deste equilíbrio.
Embora a situação epidemiológica da África em relação ao vírus HIV coloque importantes questões sobre os fatores estruturantes da epidemia e sobre os lugares de circulação do vírus - explicando a multiplicação de pesquisas que objetivam medir os impactos da epidemia - acreditamos na necessidade de uma maior reflexão sobre as formas de adaptação dos sistemas sociais e as estratégias individuais e coletivas desenvolvidas pelos diferentes agentes face à epidemia. Para tanto, é necessário saber minimamente como pensam as sociedades negro-africanas a saúde, a doença, a morte, etc.

Os sentidos de Aladjé, a saúde

Aladje, saúde em língua Agni, é um princípio que possui estreita vinculação com o Woa woe e com o Ekala, princípio vital de individualização e de imortalidade, respectivamente. Assim quando um Agni diz mi n' ti kpa, n' di aladjé (estou em boa saúde) ele está também afirmando a própria potencialidade do ser e seu estado. A relação pode também ser percebida pelos cuidados que a pessoa deve ter com o seu Aona, seu Ekala e seu Woa woe. 
É através do corpo, manifestação visível do ser, que a saúde ganha materialidade. Por isso ela, a saúde, está associada a diversas instâncias como a disposição para o trabalho e a capacidade de produzir e se reproduzir. Assim, se uma pessoa anda com segurança é porque está com saúde. São os aspectos externos que nos permitem perceber se alguém está com saúde.
Em resumo, segundo nossos informantes, a saúde é uma qualidade superior da vida e está ligada ao bem-estar que, por sua vez, pode ser percebido pelo corpo, pela ausência de sofrimento e, mais geralmente, pela força. O bem estar físico pode ser percebido por meio de algumas manifestações visíveis: andar, trabalhar, dançar, reproduzir, etc.
Mas, quando os Agni falam da saúde como bem-estar, eles não estão falando tão somente de um bem estar individual, mas também de um bem estar social: a ausência de epidemias, a ausência de mortes, a paz, a fertilidade da terra e a prosperidade da comunidade.
Assim, quando questionados, por exemplo, sobre o que fazer para manter-se em boa saúde os Agni respondem indicando algumas ações: respeito a sacralidade, respeito às interdições, respeito social e político aos costumes e às hierarquias sociais, regime alimentar e sexual, etc. Pois, se a origem absoluta da saúde é atribuída ao preexistente, a sua manutenção e perpetuação são atributos dos ancestrais, dos terapeutas tradicionistas, do Komian, dos Bosson(10) e do próprio homem.

 Os sentidos de ohounonyale, a doença

As representações sobre a doença respeitam, a princípio, a mesma lógica estabelecida para a saúde. No geral ela é descrita como uma regressão da vida, das relações e das atividades do indivíduo. Seus signos característicos são a incapacidade para andar, a impossibilidade de trabalhar - dançar e se reproduzir, o emagrecimento, a febre, o excesso de transpiração e a falta de apetite.
 Sobre as causalidades encontramos nas entrevistas primeiramente, as causas "invisíveis": os ancestrais, os Bayafoé e os "Bosson". Em segundo lugar, as causas humanas de ordem social: violação dos interditos sexuais (principalmente o incesto e o adultério) e as causas humanas de ordem individual (rancor, perjúrio, etc). Em terceiro lugar estão as causas físicas: sol, vento, poeira. E em quarto lugar podemos falar de causas sociais ligados aos novos hábitos: os novos alimentos, os produtos químicos que as mulheres utilizam nas hortas da família e os produtos químicos, voltados para a alimentação, encontrados no mercado (ex: caldo maggi). As regras de alimentação devem ser severamente observadas no sentido de evitar os casos de envenenamento.
As entrevistas revelaram que o conceito e a concepção de transmissibilidade é presente no universo de conhecimentos dos Agni de Andé. A tuberculose, a lepra, a sífilis, a gonorréia, etc, são conhecidas, por muitos, como doenças transmissíveis ou contagiosas. Além disso, reconhecem que algumas doenças podem passar de um corpo doente para um corpo são através de substâncias como o esperma, os fluídos vaginais e o sangue.
As doenças contagiosas ocupam um grupo à parte entre as doenças que assolam a sociedade. Assim a epidemia de AIDS, a exemplo do que aconteceu com a lepra, a cólera e a varíola demanda ritos extras e particulares no combate que será conduzido pelo Komian.    
O combate consiste no estabelecimento de uma terapêutica coletiva que pode ir desde a realização de uma queimada em lugares pré-determinados até o estabelecimento de pactos com a doença. Enquanto o primeiro recurso tem por objetivo impedir que a morte se instale na localidade, com o segundo espera-se abrandar a sua fúria.
A doença tem uma estreita ligação com a morte e com o decréscimo produtivo da pessoa. O doente deixa de contribuir com a família e com a sociedade e acrescenta um peso extra com despesas relacionadas à cura e no caso de sua morte despesas relacionadas aos funerais.
 O termo genérico ohounonyale (doença) designa o conjunto formado por todas as doenças com exceção das bayeohounonyale, doenças consideradas sobrenaturais. Cada um dos dois termos define uma ou mais categorias de doenças identificáveis, sobretudo, pelos seus sintomas. O que significa dizer que não basta saber se a doença é natural ou sobrenatural, mas também em que categoria ela se insere. Além dos sintomas a categoria é definida também pela causa.
 Embora qualquer pessoa possa em princípio determinar as causas da doença e a partir dos seus sintomas, o caminho a seguir, existe na sociedade Morofoé indivíduos especializados em tal finalidade.
 Alguns tipos de doença por nós identificados através das entrevistas:
- Doença provocada por envenenamento.
- Doença provocada pela palavra.
- Doença provocada pelos seres elementais (da floresta, das águas, etc) ou pelos ancestrais.
- Doença provocada pela quebra de tabus e interditos (incesto, adultério, etc).
- Doença provocada pela interferência do Bayafoé.
- Doença provocada por Disiniã(11).
- Doença provocada por brancos e estrangeiros.
Dentro da noção de doença natural e doença sobrenatural, a doença de brancos ou provocada por branco ocupa um lugar fronteiriço podendo ser interpretada de diversas maneiras, seja pela força dos brancos (caráter sobrenatural), seja pela transmissibilidade pelo contato sexual (caráter natural).

A bruxaria antropofágica dos Bayafoé

 A bruxaria para os Agni está ligada à capacidade que tem alguns indivíduos de viajar espiritualmente com o objetivo último de praticar atos considerados negativos segundo os princípios que orientam a vida coletiva. Esta arte(12) dá àquele que a manipula a capacidade de tudo saber dentro e fora da localidade, na cidade, no país ou fora dele.
 Segundo Kabran Kacou, "existem dois tipos de bruxaria: a bruxaria do mal e a bruxaria do bem. A primeira é aquela utilizada para matar o próximo, ou seja, seu filho, sua filha, seu irmão, sua irmã, seu tio, sua tia, seu pai ou sua mãe. A segunda é aquela usada dentro do bom senso como arte para proteger os membros de sua família".
Enquanto para alguns de nossos entrevistados a agressão por bruxaria constitui a primeira e mais importante causa de doença e mortalidade na localidade para outros, mais do que causa, a bruxaria é a própria doença.
Todas as ocorrências nocivas à sociedade e aos indivíduos além de serem reveladoras da bruxaria, são reveladoras da existência de um agente com a capacidade de manipular parcelas da energia cósmica e da energia vital dos seres em proveito próprio ou da sociedade secreta à qual pertence e com a qual compactua.
Na sociedade Agni este agente social é conhecido pelo nome de Bayafoé que significa literalmente "o comedor de almas" ou seja, aquele que se apropria, através de ritos muito específicos, do princípio vital de animalidade ou espiritualidade manifestado sob a forma de duplo também chamado Woa Woe.
O Bayafoé devora o Woa woe de suas vítimas com a intenção última de se apropriar desta parcela de energia vital que tem o preexistente como fonte. Ao se apropriar do Woa woe de suas vítimas apropria-se também da força vital de seus bens materiais. E como a força vital tem como sua fonte o próprio preexistente, ao devorar o Woa woe dos homens o Bayafoé está devorando o próprio ser criador.
Costuma-se dizer que as vítimas preferenciais do Bayafoé estão dentro de seu próprio clã maternal, motivo que, por exemplo, justifica o fato dos parentes do morto normalmente não participarem da interrogação do cadáver. Essas vítimas terão seus Woa woe transferido para um animal que será depois devorado pela sociedade dos Bayafoé. A idéia freqüente é a de que cada Bayafoé deve apresentar aos seus pares um membro de sua família para ser devorado. Não qualquer membro, mas sim os mais especiais, diga-se os bens sucedidos já que o sucesso é a expressão de um Ekala forte. Dispor de um dos seus para o banquete coletivo é o preço cobrado pela iniciação e também para fazer parte de tal sociedade.
Ao organizarem-se em sociedades os Bayafoé buscam encontrar as brechas sociais através das quais podem alcançar suas vítimas. Visto de outra maneira, como a lógica que orienta a bruxaria antropofágica é voltada para a família matrilinear - os Bayafoé só comem a princípio dentro da sua família - a sociedade é a possibilidade do alimento que pode se tornar escasso em virtude das ações (ritos e medicamentos especiais) de defesa dos familiares. Assim o compartilhamento de vítimas cria uma rede de solidariedades e obrigações entre os Bayafoé.
Entre a apropriação e a devoração, momento em que a vítima adoece e manifesta sinais que indicam uma possível morte, uma batalha de forças vitais será travada primeiramente entre o Jelewa(13) da vítima e o Woa woe do Bayafoé; sendo o Jelewa derrotado o último recurso está na força vital do Komian. O resultado final de ambas as batalhas será a vida ou a morte da vítima.

O sistema tradicionista de saúde

 O sistema tradicionista de saúde em Andé é formado por uma sorte de atores cujos papéis no sistema estão definidos em função do conhecimento preciso de determinadas ações e pela interação com o cosmo. É assim que os Adwèfóo expressão que significa literalmente "fazedor de medicamento" mas que usaremos, em função da própria abrangência deste agente, para designar igualmente terapeutas, médicos, curadores e especialistas tradicionistas, são normalmente, em Andé, homens com reputado conhecimento de certas doenças e da cura(14). Profundos conhecedores da flora local e dos medicamentos (Ayile), os Adwèfóo podem ainda ser divididos em diferentes grupos de acordo com a forma pela qual adquiriram o conhecimento (herança, revelação, ensinamento) como também pelas suas especialidades e conhecimentos sobre determinadas doenças, medicamentos e cura.
 Os terapeutas tradicionistas, através da medicina tradicionista revelam um saber/fazer médico dinâmico ancestral que se constrói e permite organizar uma pratica terapêutica centrada no equilíbrio do ser.
A transmissão do conhecimento se dá segundo um pacto / juramento pelo qual o novo Adwèfóo promete a seu mestre e iniciador jamais utilizar os conhecimentos ensinados para prejudicar qualquer pessoa da comunidade, "não sentir inveja dos outros, não roubar ou pegar aquilo que não lhe pertence, não procurar a mulher de outro. Se eu desejo o mau para qualquer pessoa, o fetiche pode me matar. E se qualquer pessoa desejar o mau para mim o fetiche também pode matá-la". (Kabran Kacou) 
 Embora tenhamos constatado diferenças nas razões que levam à iniciação e também no próprio processo de apreensão dos ensinamentos, detectamos alguns elementos que perpassam a iniciação de todos os neófitos no sistema de cura : o iniciado é escolhido e não escolhe; os saberes são transmitidos pelo mestre e pela sua intercessão com o cosmo, o ensinamento é conceitual e cosmológico, a palavra é o principal elemento de transmissão do conhecimento; o  conhecimento transmitido é uma parcela do conhecimento total do cosmo; a iniciação coloca o iniciado numa relação direta com as forças da natureza através de determinados elementais. Os ritos obrigam a observação de severos interditos ligados à força.
 Além de uma interferência de cunho sobrenatural no processo de aprendizagem, o iniciado passará ainda por um complexo processo através do qual aprenderá a interpretar a doença e terá acesso aos elementos minerais e vegetais importantes para a cura.
O longo processo de iniciação pelo qual passa o neófito na busca do conhecimento opera uma grande transformação na sua identidade profunda. Essa transformação altera substancialmente a essência do ser dotando-lhe de poderes de natureza esotérica.  
Ao colocar os dons recebidos a serviço da comunidade interna e externa, os Terapeutas Tradicionais exigem certos contra-dons como animais, bebidas fortes, panos e dinheiro. O doente e sua família serão ainda responsáveis pelo custo com o tratamento que pode envolver a compra de bebidas fortes, panos e certos animais. 
 Além de conhecedores da flora, imprescindível para grande parte dos tratamentos, alguns Adwèfóo são também profundos conhecedores dos diferentes agentes sobrenaturais propiciadores da doença, o que os coloca também na categoria de contra-bruxos.
Bruxos e magos, normalmente confundidos pelos ocidentais como sendo a "mesma coisa", para os Agni Morofoé representam duas diferentes categorias de seres capazes de manipulação da energia vital. Enquanto os bruxos (Disiniã) e os comedores de alma (Bayafoé), são considerados elementos negativos à sociedade justamente pela apropriação que fazem da energia vital (princípio vital de animalidade ou espiritualidade) de suas vítimas; os magos Adwèfóo (contra-bruxos) são considerados, juntamente com o Komian, as duas únicas forças possíveis de se interporem às ações maléficas dos bruxos e dos Bayafoé.
       Além dos Adwèfóo temos ainda nesse sistema de saúde o Komian e as parteiras tradicionistas.
A respeito do Komian, Eschlimann escreve o seguinte: "ao lado dos mestres políticos temos o Komian, cuja presença e ação são indispensáveis para assegurar a integração do sistema sócio-político e para fornecer a ajuda mágico-religiosa. Este personagem contribui restabelecendo as hierarquias e restaurando a comunicação entre os diferentes parceiros visíveis e invisíveis do cosmo, na ocasião do tratamento de uma doença, de uma seca ou de qualquer mal que possa fazer sofrer a comunidade. Ele constitui assim uma força auxiliar do poder político".(Eschlimann, 1985:188)
 O Komian é um elemento vital dentro do sistema tradicionista de saúde nas localidades Agni, não apenas pela sua capacidade de análise dos problemas que assolam a comunidade, mas também, pelo potencial que tem como interventor nas forças cósmicas e como restituidor do equilíbrio sem o qual a vida seria impossível. Por isso, além de um elemento político que se une ao chefe local, ele também contribui para a eficácia das ações dos terapeutas tradicionais, realizando curas ou fornecendo detalhadas interpretações sobre as causas das doenças e das mortes e indicando soluções. Assim, como parte dos terapeutas tradicionistas, o Komian quase sempre é também um profundo conhecedor das plantas medicinais, seus diferentes usos e atributos e dos ayile (medicamentos). Os conhecimentos do Komian decorrem de um longo processo iniciático através do qual ele foi iniciado no culto passando a fazer parte de uma sociedade secreta.
A maternidade, sinônimo de vida e certeza de continuidade da sociedade, constitui um dos momentos mais ricos para os Agni. A riqueza e a importância do momento justificam a existência das parteiras tradicionistas que além de serem as responsáveis pelo parto, exercem também um papel imprescindível nos ritos ligados à gravidez. Assim, logo que a gravidez é constatada a mulher é submetida a alguns interditos, como a proibição de participar de funerais; e a diferentes ritos de purificação cujo maior objetivo é impedir que ela aborte e que a criança se desenvolva plenamente dentro dos parâmetros aceitos socialmente. Para tanto, a cada período da gravidez a parteira tradicionista, que desde o início acompanha a grávida, utiliza diferentes plantas medicinais com objetivos específicos. O trabalho da parteira tradicionista que tem início logo depois dos primeiros sinais da gravidez, só terminará 14 dias depois do nascimento, momento em que mãe e filho poderão sair do quarto a eles reservado.
 Os curadores são agentes que fazem parte, se assim podemos dizer, de um universo social e cosmológico presente também em outras sociedades negro-africanas, sob diferentes nomes.
Se a AIDS é uma nova doença, os especialistas da cura entre os Agni assim como também o conjunto da sociedade, apressam-se na interpretação da nova realidade, revelando uma capacidade sem igual para adaptar-se à nova problemática, transformando-a não em totalidade, mas sim em fase, embora as reais conseqüências no micro-universo ainda não tenham tido sua análise efetivamente concluída.
Assim ao buscarmos compreender através de dados de realidade a lógica das representações da saúde e da doença entre os Agni de Andé nos deparamos com alguns atores sociais relevantes a esta compreensão como os terapeutas tradicionistas, o Komian, os agentes da saúde e os usuários dos dois sistemas de saúde: o tradicionista e o ocidental. 
Assim, entre os Agni, saúde e doença além de estarem intrinsecamente ligadas à noção de pessoa, são as conseqüências mais visíveis e imediatas da obediência ou da desobediência às normas ancestrais tais como: "não coabitar com uma mulher durante suas regras; não consumir alimentos preparados por uma mulher durante seu ciclo menstrual; não colocar a mão em sangue humano, exceto para tratar de uma ferida ou para realizar um sacrifício; não cometer adultério, não maltratar os órfãos, não recusar comida e bebida para o próximo; não sentir raiva; não guardar rancor; não sentir ciúmes do próximo".(D'Aby, 1968 :23)

O sistema de interpretação da saúde e da doença

Embora encontremos em Andé, como também em outras localidades, dois diferentes sistemas de saúde (tradicionista e ocidental), o uso que a população local faz do primeiro, do segundo ou de ambos, depende da conjunção de alguns elementos dentre os quais se destaca, a nosso ver, a interpretação.
Já no caso das doenças, as concepções que têm os Agni sobre as doenças (naturais e sobrenaturais) e o uso que fazem de tais concepções nas interpretações ajudarão na definição, juntamente com outros elementos (mês do ano, distância em relação aos dois sistemas de saúde, dinheiro, etc.), e na escolha do melhor sistema.
Doenças naturais e sobrenaturais compõem dois diferentes grupos de doenças conhecidas dos Adwèfóo, dos Komian e de grande parte dos moradores da localidade. A diferença básica entre naturais e sobrenaturais parece estar na própria etiologia da doença que segundo uma identificação causal que se une à teoria da contaminação, objeto de vários trabalhos no campo da antropologia. (Fainzang, 1981-1982; Augé e Herzlich, 1983)
As doenças sobrenaturais são aquelas consideradas como tendo sido causadas por agentes exteriores à pessoa tais como os ancestrais ou os Bosson, bruxos (manipulação da energia vital ou envenenamento) ou os Bayafoé (manipulação e devoração do Woa woe, o duplo invisível). Exemplos de doenças sobrenaturais, amplamente citados por nossos entrevistados são: a infertilidade, as doenças que atacam principalmente o fígado e os pulmões, as que fazem inchar a cabeça, a barriga ou os pés; doenças que embora curtas levam o doente à morte.
As doenças naturais são todas aquelas para as quais os intérpretes consideram não haver qualquer interferência dos agentes acima citados: ancestrais, Bosson, bruxos e Bayafoé. Neste caso o destaque será dado às questões climáticas (sol, chuva, frio), a algumas situações decorrentes também da estação do ano (o Harmattan) ou à dinâmica da vida cotidiana (o trabalho e o cansaço dele decorrente, principalmente do período de derrubada de florestas).  O principal exemplo fornecido por nossos entrevistados é a Djahouman, nome pelo qual a malária é conhecida pelos Agni. 
Embora a classificação, conforme observado através da pesquisa de campo, siga um padrão previamente estabelecido, algumas doenças, segundo a sua capacidade destrutiva podem passar da condição de natural para sobrenatural como é o caso da AIDS e da tuberculose.
Mesmo quando o doente / a vítima pensam conhecer seu agressor, a ética social Agni determina que somente o Komian poderá fazer qualquer acusação publicamente, inclusive citando nomes e exigindo reparações. O discurso do Komian repousa sobre um sistema de crenças que constitui o quadro ideológico de interpretação da doença, feito a partir de uma longa interrogação dirigida às entidades sobrenaturais, à família, à comunidade e ao próprio doente trilhando um caminho que o levará ao diagnóstico.
François Héritier afirma que "... o corpo ideológico de toda a sociedade (isso significa o conjunto das representações) deve estar necessariamente na medida para funcionar como sistema explicativo coerente para todos os fenômenos e acidentes inerentes à vida individual (o infortúnio, a doença, a morte), à vida em grupo, e até mesmo para os fenômenos que são de ordem natural...".(Héritier, 1978:388)
Assim o diagnóstico feito pelo Komian ou por um terapeuta tradicionista parte de dois planos convergentes: a observação dos sintomas, o que demanda um profundo conhecimento das doenças; e os mitos estruturadores que envolvem a saúde, a doença, a cura e as regras sociais do grupo.  
O adultério foi um exemplo largamente utilizado por nossos entrevistados para explicar o quanto a quebra dos valores éticos interferem na saúde das pessoas ou como disse Marc Augé como "toda desordem individual induz a uma desordem social" que pode levar à morte. (Augé, 1977:18). Neste caso evidenciava-se nos discursos interpretativos a transgressão praticada pelo doente e a necessidade de reparações, sem as quais a restauração da saúde é impossível.  
O sistema interpretativo da doença coloca o doente, a doença, a família, a comunidade em interação com o Komian que através de um sistema de crenças e conhecimentos formulará determinadas verdades.
Mas, embora na interpretação o Komian seja reconhecidamente aquele que tem a palavra final, a família do doente costuma fazer as interpretações preliminares antes de levar o problema ao conhecimento do Komian. Por outro lado, as características a as regularidades de certas doenças também fazem com que nem sempre o problema seja levado ao Komian.
A família poderá ainda, sem recorrer ao Komian, em função do conhecimento de algum membro da família, vizinhos ou amigos, fazer uso de uma farmacopéia de domínio público de reconhecida eficácia.
Um outro itinerário consiste em primeiro procurar a cura no hospital e somente depois, em não havendo resultado positivo no sistema moderno de saúde procurar o sistema tradicionista. A lógica é a seguinte: as doenças naturais, não causadas por bruxaria, podem ser curadas pela medicina moderna enquanto as doenças sobrenaturais causadas por bruxaria ou quebra de interditos só podem ser tratadas pela medicina tradicionista.
Dentro deste cenário de relações de agentes de interpretação, o doente deve sempre informar alguém da família (normalmente o irmão da sua mãe, seguido do pai e do irmão mais velho) sobre seu estado. Tendo tomado conhecimento a família rapidamente procurará as soluções que julgar as mais corretas para o caso relatado pelo doente. A decisão dependerá, quase sempre, de um longo debate onde serão procuradas as causas da doença, inclusive com a formulação de algumas questões voltadas diretamente para o doente e para sua esposa, no caso dos homens ou para algum outro membro da família. No final do debate será apresentada a decisão quanto ao sistema de saúde a procurar. No caso das doenças sobrenaturais a família poderá ainda indicar o terapeuta tradicionista mais competente para o caso.

A Aids na Costa do Marfim

A Costa do Marfim é hoje um país em transição epidemiológica onde persistem endemias antigas como a malária, o trypanosoma, a oncocercose, a lepra e a dracunculose (verme da Guiné); emergentes como o HIV/AIDS e a úlcera de Bauru e reemergentes como a tuberculose, ao mesmo tempo em que se desenvolvem as patologias ligadas aos novos hábitos de consumo (câncer, doenças cardiovasculares, diabetes, etc...).
Atualmente, com 40% de todos os casos de contaminação por HIV na África do Oeste, a Costa do Marfim ocupa o oitavo lugar na lista da ONUSIDA - Departamento da Organização das Nações Unidas para a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida e da OMS - Organização Mundial da Saúde de países, com as maiores taxas de soroprevalência no continente africano. 
Segundo a ONUSIDA(15), 24,5 milhões de mulheres, homens e crianças estão infectados pelo HIV na África subsaariana e a Costa do Marfim é certamente a região sócio-espacial que mais óbitos ocasionados pela AIDS acumulou desde o início reconhecido da epidemia nos anos 80 até o fim de dezembro de 1997, 420.000 mortes. (Moatti et alii, 2001:2)
O combate à infecção pelo HIV com uma prevalência estimada em 10% ao nível da população geral e 15% ao nível das mulheres grávidas (consideradas habitualmente como representativas da população sexualmente ativa) de Abidjan, o tratamento contra a AIDS e a malária constituem na atualidade as grandes prioridades nacionais na área de saúde. 
Os conhecimentos atuais sobre o impacto do HIV/AIDS nos índices de mortalidade na Costa do Marfim tiveram início através dos trabalhos desenvolvidos por pesquisadores do projeto RETRO-CI (Rétrovirus Côte d'Ivoire) de Abidjan em 1988. Esses trabalhos foram desenvolvidos a partir de duas diferentes fontes: os pacientes dos serviços médicos e os cadáveres dos CHU - Centros Hospitalares Universitários dos bairros de Treichville e Cocody. 
 Os dados resultantes das pesquisas foram alarmantes: 41% dos pacientes atendidos nos dois hospitais, entre os meses de julho e novembro de 1988, eram soropositivos para o HIV. A pesquisa revelou ainda que 96% dos pacientes diagnosticados soropositivos estavam contaminados pelo HIV-1.
 Naquele momento confirmou-se o que já se previa: a AIDS era a causa da morte de 33% dos adultos nos dois hospitais (37% no caso da morte de homens e 21% no caso da morte de mulheres).  
 Através dos 698 cadáveres de ambos os sexos utilizados na pesquisa, a equipe do RETRO-CI (Rétrovirus Côte d'Ivoire) constatou que 41% dos corpos do sexo masculino e 32% dos corpos do sexo feminino estavam contaminados pelo HIV. 
A rápida difusão do HIV/AIDS na Costa do Marfim e a amplitude dos desastres sociais que provocam podem ser estimados partindo-se das informações existentes sobre a soroprevalência no país. Pesquisas realizadas em diferentes regiões indicaram que no conjunto da população sexualmente ativa a taxa média de contaminação estava na casa dos 10% e, no caso específico das mulheres, 15%. Os índices mais elevados de contaminação (80%) foram identificados entre as profissionais do sexo de Abidjan, Bouaké e das localidades fronteiriças que fazem parte do corredor Abidjan - Lagos. Entre os portadores de Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST) a taxa é de 25% e entre os tuberculosos 50%.
Os resultados da pesquisa de 1988 e das subseqüentes mostraram que a infecção pelo HIV se disseminou em todas as regiões da Costa do Marfim, sendo que mais de 8% da população adulta no sul estavam infectados pelo HIV-1, HIV-2 ou ambos. Os níveis de infecção em outras regiões variaram, sendo que o menor nível de infecção foi observado no norte do país. Da mesma forma, a distribuição total de infecção pelo HIV variou entre os vírus, sendo que o HIV-2, por exemplo, foi mais importante na região central do que em outras áreas. No entanto, de um modo geral, mais de metade das pessoas infectadas em todas as regiões estavam infectadas pelo HIV-1.
Por trás das estatísticas notamos que o impacto do HIV/AIDS se dá em esferas largamente incomensuráveis: sofrimentos, lutos, mudanças, perdas globais, criatividades interrompidas e gerações aniquiladas. Nas sociedades agrícolas, o desaparecimento prematuro de uma geração, além de promover o crescimento de uma multidão de órfãos, rompe a transmissão de conhecimentos teóricos e práticos primordiais, colocando em grave situação a subsistência de populações inteiras. Nessas mesmas sociedades onde muitas vezes as mulheres são responsáveis por 50% a 80% da produção de alimentos, quando uma mulher adulta adoece ou falece a segurança alimentar quase sempre entra em crise. 
Alguns pesquisadores acreditam que estes números estejam muito aquém da realidade da epidemia em grande parte dos países africanos, seja porque a estrutura moderna de saúde não consegue absorver o conjunto da população infectada, seja porque os doentes costumam voltar para as localidades de origem, em geral na zona rural, por acreditarem que por meio dos tratamentos tradicionistas lá encontrados terão maiores chances de cura.
 A AIDS não traz apenas um problema do custo da doença. As conseqüências no âmbito das famílias são múltiplas e multiformes forçando-as a uma reorganização nas estruturas de produção. Isto porque a epidemia tem conseqüências sobre o potencial de desenvolvimento dos grupos sociais e do país uma vez que afeta mais diretamente as populações em idade fértil e aquelas mais importantes na produção social e econômica.
 Por outro lado, sabidamente, como os medicamentos utilizados no combate à AIDS são escassos na África subsaariana, uma boa alimentação é indispensável. Mas com a diminuição da produção e o empobrecimento das famílias, a subnutrição tende a aumentar progressivamente. 
Nas zonas rurais a morte prematura dos pais agricultores além de romper com a transmissão dos conhecimentos teórico e prático, as crianças crescem com uma capacidade reduzida de conhecimentos sobre a manipulação e a exploração da terra o que pode resultar no seu abandono.
Os conhecimentos adquiridos através de diversas pesquisas desenvolvidas na África subsaariana, assim como no resto do mundo, desde 1981, permitiram a elaboração de uma estratégia mundial de combate à epidemia, baseada na prevenção, na redução dos impactos para os indivíduos e para a sociedade e na unificação de esforços nacionais e internacionais. Como fruto do plano estratégico foi criado, na Costa do Marfim, em 1987, o CNLS - Comitê National de Lutte contre le Sida. Através da criação do CNLS o governo reconhecia oficialmente a existência da epidemia ao mesmo tempo em que aderia às estratégias da OMS. O início tímido do CNLS, órgão que se tornou responsável pelo primeiro plano de combate à epidemia, foi marcado por um conjunto de ações divididas em três etapas: a primeira delas dizia respeito ao próprio reconhecimento da epidemia e a necessidade das ações de combate; a segunda estava ligada à articulação da luta contra a AIDS ao programa de combate as DST - doenças sexualmente transmissíveis e a criação de estruturas de ação do Comitê; e a terceira etapa visava a integração da luta contra a AIDS à luta contra a tuberculose além da descentralização da coordenação. Com a implementação das três etapas o CNLS passou a se chamar PNLS - Programme National de Lutte contre le Sida e com a incorporação dos programas de luta contra as doenças sexualmente transmissíveis em 1993 e tuberculose em 1995, passou a PNLS/MST/tuberculose. 
A integração dos programas de combate AIDS e à tuberculose foi um passo importante à medida que a tuberculose é a principal doença oportunista decorrente da contaminação pelo HIV.  
Segundo Blibolo, o programa teve como objetivo "definir uma estratégia de prevenção da transmissão do HIV por transfusão de sangue, prevenir as infecções através de ações IEC - Informação, educação e Comunicação; melhorar o diagnóstico e o tratamento, ampliar a coordenação de gestão do programa, reforçar a vigilância epidemiológica e assegurar a promoção e a coordenação da pesquisa".(Blibolo, 2001 :129)
Embora a avaliação do plano tenha sido feita a partir das atividades realizadas, não existia até 2002, ano de nossas pesquisas de campo, dados seguros sobre o impacto das ações do programa na diminuição da evolução exponencial da epidemia. De qualquer forma, para o cumprimento dos planos estratégicos de curto e médio prazo, o governo marfinense destinou em 1999 2,4 milhões de FCFA (Franco da Comunidade Financeira Africana), em 2000 3,7 milhões FCFA, em 2001 1,3 milhões FCFA e em 2002 3,1 milhões de FCFA.
O crescimento demográfico, de um lado, e a prevalência do HIV/AIDS, do outro, tem possibilitado uma série de projeções a respeito do futuro das populações dos países em desenvolvimento. No caso específico da Costa do Marfim o trabalho do estatístico e demógrafo do INS (Instituto Nacional de Estatística) M. Abbas Senoussi é referência para o planejamento de algumas ações a longo, médio e curto prazo.
As projeções finais do trabalho desenvolvido por Abbas Senoussi, com o auxílio do programa "Epimodel" da OMS, do documento "Perspectivas demográficas na Costa do Marfim de 1988 a 2028" e dos documentos do CNLS, produzidos durante o encontro destinado a análise do impacto econômico, social e demográfico da AIDS na Costa do Marfim, podem ser assim resumidas, considerando 3 diferentes hipóteses sobre a soroprevalência: AIDS-AR(16), AIDS-15(17) e AIDS-20(18).
Segundo Abbas, se a soroprevalência nacional atingir o patamar de 15%, em 10 anos(19) a Costa do Marfim terá 1,5 milhões de pessoas vivendo com o HIV e, se o patamar for de 20%, terá 2 milhões de pessoas contaminadas.
Para Abbas, se a epidemia fosse controlada e nenhum novo caso de infecção tivesse sido registrado no ano de 1993, mesmo assim o número anual de mortes seria superior a 50.000, decrescendo somente a partir do ano 2.000, o que não aconteceu. 
 Considerando que a dinâmica demográfica de uma população é o resultado conjugado de três importantes fenômenos: a fecundidade, a mortalidade e a imigração, no caso específico da Costa do Marfim, embora existam dados sobre a fecundidade e a imigração, faltam informações confiáveis sobre a mortalidade. A ausência deste dado impossibilita uma maior aproximação dos reais impactos da epidemia sobre os índices de mortalidade no país. 
As projeções demográficas da ONU também indicam um forte impacto da epidemia fazendo inclusive com que aumente o número de mortes diárias. No caso específico da Costa do Marfim a projeção indica que até 2005 ocorrerão 555.000 mortes decorrentes da epidemia. Sem a epidemia esta projeção seria 11,1% menor (ONU, 1993). A projeção indica também que a epidemia tem um forte impacto sobre a esperança de vida fazendo com que caia de 58,4 anos entre 2000 e 2005 para 51,6 anos no mesmo período. Na Costa do Marfim as projeções consideram que o crescimento populacional previsto de 3,54% entre 2000 e 2005 cairá para 3,28% no mesmo período.
Muito embora existam alguns estudos(20) que revelam uma razoável baixa na mortalidade infantil e indicam que a população marfinense deverá mais que triplicar no curso dos próximos 35 anos atingindo um total de aproximadamente 44 milhões de indivíduos em 2028, os especialistas em demografia começam a avaliar o impacto a médio e longo prazos da AIDS sobre o crescimento populacional e anunciam mais claramente que o pior ainda está por vir. A estimativa média de vida deverá sofrer um recuo de 18 anos, passando de 63 para 45 anos em virtude desta infecção viral.
O peso do doente de AIDS no orçamento da família foi analisado no trabalho de Bechu, Delcroix e Guillaume "Devenir socio-economique des enfants et familles affectes par le VIH/SIDA dans les pays en developpement : les cas de la Côte d'Ivoire". Nele as pesquisadoras apontam que a maior parte dos recursos domésticos consumidos com cuidados na área da saúde (consultas, medicamentos, tratamentos, etc.) mais do que dobraram nos casos em que existem pessoas doentes de AIDS na residência: 10,6%, contra 5,6% nas outras residências. O Posto de saúde representa 80% das despesas de saúde específicas que tem o doente de AIDS, ou 8,4% do consumo total. Em média cada residência pesquisada gastou 91.660 FCFA com os cuidados do paciente HIV, um pouco mais de 5.700 FCFA por mês. (Bechu, et alii, 1997:14)
A doença compromete o orçamento da família que tem que dispor de elevadas somas para o tratamento do indivíduo doente sem que ele possa contribuir com o grupo. Gerando um desequilíbrio na direção do doente, o que significa dizer que ela passa se apropriar de uma parcela maior das riquezas produzidas pelo grupo. E, à medida que a doença se agrava para o quadro de terminal, maiores são as despesas. Com a morte a família tem ainda um gasto suplementar com os funerais e posteriormente com as dívidas contraídas em função da doença e dos funerais. E, se os gastos com o doente aumentam, a família terá que buscar novos recursos ou mesmo diminuir os gastos com outras despesas, na garantia da continuidade de um tratamento. É bem verdade que não sabemos qual a efetiva participação de parentes e amigos. O momento posterior à descoberta da doença até o falecimento pode significar somas que ultrapassam 25% do orçamento familiar. (Bechu, et alii, 1997:14) Os gastos com doença saem da categoria de despesas ocasionais e passam a despesas de base.
Não sabemos o quanto custa efetivamente, no orçamento familiar, os gastos com o morto e com a morte, mas acreditamos que dada a suntuosidade dos funerais eles podem representar um custo elevado, mesmo considerando que este é o momento de maior solidariedade(21) familiar e comunitária. 
A doença tem um impacto forte sobre o já deficitário sistema de saúde africano. Os leitos dos hospitais passaram a receber uma super população de vítimas das doenças oportunistas o que eleva o déficit de leitos e acentua os problemas já existentes. O paciente arca praticamente com o total do custo do tratamento. 
Em 1993 os doentes de AIDS ocupavam 70% dos leitos do serviço de doenças infecto-contagiosas do Centro Hospitalar Universitário de Treichville. (Kerouedan, 1993a)

... e a vida continua

Os dez meses passados entre os Akan-Agni Morofoé de Andé foram imprescindíveis, dentro das perspectivas por nós adotadas, para a compreensão de parte do sentido da epidemia do HIV/AIDS naquela localidade. Percorremos um longo caminho, tendo como objetivo maior a apreensão de dados de realidade e as explicações que a sociedade Agni Morofoé oferece, tendo como momento de partida o seu próprio ponto de vista. Reunimos horas de entrevistas com o chefe e alguns dos notáveis da localidade, com o enfermeiro, a parteira e os terapeutas tradicionistas, com os homens e as mulheres e, embora acreditemos na capacidade ótima das sociedades negro-africanas de transformarem em fases e não em totalidades os impactos decorrentes de processos desestabilizadores e desestruturadores, vemos na epidemia do HIV/AIDS um real desafio para a vida no continente em sua plenitude. E a vida plena, traduzida pela palavra "Mendilé" em alguns grupos Akan, significa literalmente "comer o mundo", apropriar-se dos recursos exteriores que asseguram e fazem prosperar a existência. Para os Akan a vida, além de um valor em si mesma, é também o recurso para outros valores e a finalidade e a razão de ser de todas as atividades ligadas ao conhecimento e à economia justificando, por exemplo, a importância que tem a sexualidade, a procriação e a maternidade, seus atores (homem-mulher) e instituições como o casamento e a poligamia. Por isso afirma o provérbio Akan: "a criança é o remédio do homem contra a morte". 

(1) O autor é doutor em sociologia pela USP - Universidade de São Paulo
(2)A Costa do Marfim faz fronteira no oeste com a Libéria e a República da Guiné, no norte com o Mali e o Burkina Faso, no leste com Gana e no sul com o oceano Atlântico. Segundo o último censo demográfico, realizado em 1998 a população marfinense era de aproximadamente 16.000.000 indivíduos. Desse total, cerca de 24,87% (3.656.097) eram estrangeiros.
(3) O termo Kwa significa "homem" ou "força vital" o que nos permite compreender o fato de haver um grande número de famílias Akan cujos nomes são Kwadio (Kouadio), Kwassi (Kouassi) ou Kwamé (Kouamé).
(4) Os Akan-Agni Morofoé consideram estrangeiro todo aquele que vem de fora e que pertence a um outro grupo humano cuja ideologia social é diferente da sua. Esta situação é visivelmente observável pelo uso de uma língua estrangeira. A terra que o estrangeiro ocupa temporariamente não é sua terra natal e seus ancestrais não estão sepultados nela.
(5) O termo tradicionista foi adotado, segundo Leite (1982), pelos participantes do Seminário sobre a "Civilização Senufo", realizado em Korhogo, Costa do Marfim, em agosto de 1979. No artigo o termo substituirá a palavra tradicionalista.  
(6) Komian é o termo usado pelos Agni Morofoé para definir, ao mesmo tempo, o culto as forças que protegem a aldeia e seus praticantes. Considerando um anti-bruxo ele utiliza suas força para neutralizar as bruxarias lançadas contra a sociedade.
(7) Babazru é o nome dado pelos Agni para algumas doenças sexualmente transmissíveis.
(8) Segundo Thomas, "a pessoa yoruba (Nigéria), por exemplo, comporta uma pluralidade de componentes: elementos materiais, elementos imateriais perecíveis e elementos imateriais imperecíveis".(Thomas, 1973:389)   
(9) Kabran Kacou Ambroise, notável e terapeuta tradicionista da Aldeia Andé.
(10) Bosson são seres encantados que vivem nas florestas, nos rios ou no mar e recebem cultos específicos.    
(11) O Disiniã é uma figura ambígua que rivaliza com o Komian pois embora seja conhecedor das terapias de cura e dos medicamentos, costuma utilizar seus conhecimentos contra os valores éticos da comunidade. O Komian ao contrário, na sua iniciação, assume o compromisso de colocar seus conhecimentos à serviço do bem da comunidade.
(12) Expressão usada por Kabran Kacou durante a entrevista.
(13) Jelewa é um poder individualizado que cada ser dispõe para sua própria defesa. 
(14) D'Aby em sua definição dos Adwèfóo (chamados por nós de terapeutas tradicionistas) diz que eles são indivíduos que passaram uma parte da vida estudando ao lado de mestres reputados, os sintomas das doenças e as propriedades medicinais das plantas. (D'Aby, 1968:53)

(15) UNAIDS. Report on the global HIV epidemic. Geneve, june 2000.    
(16) AIDS-AR: contaminação totalmente controlada com nível zero.
(17) AIDS-15: soroprevalência nacional em 15%.
(18) AIDS-20: soroprevalência nacional em 20%.
(19) As projeções de Abbas foram realizadas considerando-se os anos de 1988 a 2003. 
(20) La Côte d'Ivoire en chiffres. Ministere de L'Economie et des Finances, édition 96-97, Abidjan, Dialogue Production, 1998.
(21) A solidariedade, uma das expressões do humanismo africano, é a materialização de um pacto estabelecido entre os membros de uma família, entre algumas famílias e/ou entre diferentes grupos étnicos através de regras fortemente codificadas. No caso do HIV/AIDS essas regras têm um papel importante na materialização da solidariedade frente à epidemia, seja no apoio psicológico e moral, nos auxílios financeiros ou mesmo na adoção das crianças da família cujos pais morreram vítimas da AIDS.

BIBLIOGRAFIA

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